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Joseph Pulitzer
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segunda-feira, 30 de junho de 2014

sábado, 21 de junho de 2014

STPtv - Guiné-Bissau: Novo Futuro

Apenas um pequeno pensar Guiné-Bissau que partilhei com o meu caro amigo Abílio Bragança Neto. Proponho-vos escutar e tecer críticas válidas para o bem da Pátria-Mãe! LV 



terça-feira, 17 de junho de 2014

O que há a fazer de forma diferente ?

A realização bem sucedida recente de eleições legislativas e presidenciais aumentou as esperanças de que na Guiné-Bissau pode aproximar-se o fim de uma crise política de dois anos marcados pelo isolamento internacional e um declínio económico devastador. 

 

A reaproximação pós-eleições

Os resultados foram aceitos pela população, a opinião internacional e rivais políticos. Havia a preocupação de que os militares, com uma história de intromissão na política, iria criar problemas se o seu candidato preferido, Nuno Gomes Nabiam, perdido.
Mas, em um movimento surpreendente, António Indjai, o chefe do Exército e líder do golpe de abril de 2012, que provocou uma nova divisão política e enviou o país para trás, saudou publicamente o presidente eleito José Mário Vaz, que bateu em Nabiam para o segundo lugar.

Desde as eleições, o Partido Africano da Vaz para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que historicamente tem dominado a política da Guiné-Bissau, tem procurado prosseguir o diálogo com o principal partido de oposição Partido da Renovação Social (PRS).
Este esforço tem sido bem acolhida pelos parceiros internacionais da Guiné-Bissau, que têm incentivado o PAIGC para evitar uma mentalidade de "vencedor leva tudo", e trazer seus adversários para o rebanho. Representante Especial da ONU, José Ramos-Horta tem apelado repetidamente para um governo inclusivo.
De acordo com Vincent Foucher, analista baseado em Dakar com o Grupo de Crise Internacional (ICG) think-tank, os altos níveis de violência política ea instabilidade repetido testemunhou no passado foram expulsos por uma intensa concorrência para o acesso aos recursos do Estado.
"Fundamentalmente, a economia do país continua a ser fraco e clientelista. Então, o Estado é o prêmio de chave, eo jogo político é o vencedor leva tudo. É por isso que as poucas centenas de negócios, personalidades políticas e militares que jogam o jogo, por vezes, chegar a manobras violentas. " Foucher argumenta que "a melhor defesa contra outro golpe é um regime civil, que mantém a sua legitimidade através de resultados de políticas e de boa governação." 

Como controlar os militares

Mas os problemas estruturais que têm deficientes Guiné-Bissau no passado não desapareceram. Foucher salienta que resolver os problemas administrativos terríveis e estabelecer uma governança adequada não será fácil.
Esforços anteriores para reformar o setor de segurança têm enfrentado forte resistência, especialmente quando eles desafiaram os privilégios há muito estabelecidos das forças armadas. Exército da Guiné-Bissau continua a ser de grandes dimensões e top-pesado, com muitos oficiais de longa servindo relutantes em se aposentar.
"É verdade que existe uma tradição de intervenção militar na política em Guiné-Bissau, mas hoje, o contexto político é diferente", argumenta Ovidio Pequeno, representante especial para a União Africano (UA). "Os militares têm sempre interferido quando os políticos são fracos e divididos. Quanto agora, as novas autoridades têm legitimidade para liderar o país." 

Emendando a economia

Analistas apontam que novas autoridades políticas da Guiné-Bissau tem que renovar uma economia quebrada, apoiado e corrigir as deficiências graves em setores duramente atingidos, como saúde e educação.
As taxas de pobreza são extremas. Guiné-Bissau tem sido marcada por altos níveis de corrupção. A exploração madeireira ilegal e excesso de pesca estão entre as questões que terão de ser tratadas. Problemas como atrasos de salário, voltando por um longo período, que necessitam de assistência externa. "O governo que assumirá encontrará os cofres vazios", adverte Pequeno. 

O desmatamento eo tráfico de estupefacientes

Presidente eleito Vaz prometeu acompanhar de perto todos os contratos de exploração de recursos naturais. Durante o ano passado, os ambientalistas vêm alertando para os riscos de uma devastação brutal das florestas da Guiné-Bissau. Um jornal local denunciou recentemente a exploração madeireira por empresas chinesas e Gâmbia, na Região de Quinara.
Combate ao tráfico de drogas será outro desafio difícil. Sem fiscalização adequada, a polícia e as forças armadas mal pagos, e um sistema de justiça funcionando precariamente, Guiné-Bissau tem sido identificado como um dos principais "estados narco" da África Ocidental, perigosamente vulnerável à influência de traficantes de drogas.
O ex-chefe da marinha, Bubo Na Tchuto, que foi capturado pelas forças dos EUA em abril de 2013, recentemente se declarou culpado por acusações de conspirar para trazer drogas para os Estados Unidos.
No ano passado, uma queda no preço da castanha de caju, Guiné-Bissau principal produto de exportação, o que sustenta cerca de 80 por cento de seus 1,6 pessoas, deixou cerca de metade da população enfrenta uma grave escassez de alimentos. 2013 foi o segundo ano consecutivo de queda dos preços da castanha de caju no país. 

O que mudou desde Abril de 2012? 

A crise provocada pelo golpe de Estado em abril de 2012 trouxe terríveis consequências económicas e lições amargas.
"O que mudou é que as pessoas no exército e na política aprenderam da maneira mais difícil que os golpes trouxe isolamento internacional, e que o isolamento trouxe questões orçamentais importantes", disse Foucher do ICG.
Na sequência do golpe militar de abril 2012, os principais doadores internacionais da Guiné-Bissau, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Africano de Desenvolvimento suspendeu a ajuda técnica e financeira.
De acordo com o Panorama Econômico Africano, o déficit fiscal da Guiné-Bissau aumentou para 4,7 por cento do PIB em 2013 de 2,7 em 2012. Déficits orçamentais significava cortar despesas do Estado, conduzindo o país ainda mais na pobreza.
O regresso à ordem constitucional deve pavimentar o caminho para renovar o apoio internacional, que por sua vez deve ajudar a iniciar algum tipo de recuperação econômica.

Aprender as lições

"Há muitas lições que o golpe tenha ensinado aos políticos, os militares e as pessoas em geral;. Uma espécie de experiência nacional. As dificuldades durante os dois anos de transição terão convencido a maioria que um golpe não é uma solução para a resolução política problemas ", diz o Pequeno da UA.
Além disso, o surgimento de uma novo e mais jovem conjunto de líderes políticos é uma fonte de esperança para a estabilidade do país, Pequeno disse à IRIN.
Segundo Luís Vaz Martins, presidente da Liga dos Direitos Humanos da Guiné (GHRL), muita coisa mudou, como o país agora finalmente tem um governo legítimo e um presidente eleito que deverá ser inaugurado no dia 23 de junho. 

Reconciliação e anistia

Um acordo formal entre o PAIGC e PRS em que se comprometem a trabalhar juntos pela reconciliação, é um sinal importante.
Em uma declaração conjunta assinada pelo in-vindo primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, e o líder do PRS Alberto Nambeia, as duas partes concordaram em trabalhar por um projeto de lei para conceder anistia aos líderes do golpe de Estado de 2012.
Isso, no entanto, pode muito bem provocar reações iradas como muitos acreditam que ele vai ajudar a perpetuar a impunidade generalizada que reina no país.

A ideia de uma anistia foi previamente apresentada pelo governo de transição, mas bloqueado na Assembleia Nacional e fortemente criticado pela sociedade civil e grupos de direitos humanos.
Presidente GHRL Martins disse à IRIN que a sua organização vai se opor a qualquer tentativa de aprovar um projeto de lei de anistia. A verdadeira reconciliação, disse ele, é conseguida através da justiça de transição.
No entanto, em seu relatório de abril de 2014, o ICG sugeriu que a Assembleia Nacional recém-formado aprovar o projeto. Foucher do ICG pode ver as desvantagens, mas reconhece que uma anistia agora "é um preço aceitável a pagar para a estabilidade política e uma oportunidade de experimentar e construir instituições fortes que podem tornar a vida de toda a população melhor."

[Este relatório não reflecte necessariamente as opiniões das Nações Unidas.]

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Entrevista de Paulo Gorjão para a 'DW'

Sobre a vitória de Domingos Simões Pereira no PAIGC, eleições e F.Armadas


Pode ler e ouvir, AQUI





Nota do editor: O "calcanhar de aquiles" de Domingos S. Pereira, não será por maioria de razão, o mesmo de R. Horta ??


sábado, 1 de fevereiro de 2014

"Levem e guardem convosco".

Neram N'Dok é uma expressão Bijagó que significa "levem e guardem convosco".


Este é um filme que traz consigo um olhar sobre um processo de governação participativa nas Ilhas Urok, uma área marinha protegida no Arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau, onde a conservação, desenvolvimento, cultura e tradição são pilares indissociáveis nos quais assenta o modelo de gestão deste espaço.

Este filme foi feito no âmbito da parceria entre a Universidade de Aveiro e o Instituto Marqês de Valle Flôr, incluído no projecto Urok Osheni!, implementado pela ONG guineense Tiniguena e pela ONG portuguesa IMVF, tem como objectivo construir um modelo de desenvolvimento sustentável para a área marinha protegida comunitária das Ilhas Urok, na Guiné-Bissau.

Este modelo é assente na governação participativa e na melhoria das condições de vida da população residente.

( C/ a devida vénia: "Gumbe07" )

Também a demonstração de que o POVO tem identidade, capacidades, desde que não lhe roubem as ferramentas: Educação e Liberdade. (c.f)






quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A TAP isola a Guiné-Bissau do exterior ?

Como luso-guineense e conhecedor profundo do sentir da esmagadora maioria dos guineenses residentes e imigrantes em Portugal, estou profundamente indignado com as asneiras daqueles que estão a desgovernar a Guiné-Bissau, conduzindo-a para o abismo.


O que aconteceu com a TAP em Bissau foi uma verdadeira palhaçada política sem nenhuma graça, para entreter a assistência à escala mundial. Aliás, os guineenses habituaram a comunidade internacional a cenas em nada dignificantes para o país.
Ora, esses aprendizes da feitiçaria política confundem sistematicamente os seus interesses pessoais com os legítimos interesses do país, delapidando o erário público em detrimento do bem comum. O recente acontecimento veio evidenciar a permeabilidade à corrupção dos dirigentes guineenses. Daí que alguns deles cobertos de lama da corrupção pretendem “cobrir o sol com a peneira”, tentando lançar a culpa sobre as autoridades portuguesas e sem o mínimo de vergonha.

Pois bem, a TAP agiu em conformidade com o seu sentido de responsabilidade de zelar pela segurança de pessoas e de bens nos seus aviões, mas viu-se forçada pelos irresponsáveis e incompetentes governantes a trazer os refugiados sírios para Portugal, mesmo com documentos falsos.
Assim este incidente, que poderia ter provocado danos irreparáveis, causou enormes prejuízos aos passageiros, quer de um lado, quer do outro do Atlântico, com significativa perda de tempo. Mas, apesar de incompetência dos governantes guineenses em lidarem diplomaticamente com casos daquela natureza, a TAP deveria reconsiderar o seu breve regresso aos voos para a Guiné-Bissau, satisfazendo o desejo do povo guineense. Aliás, toda a gente sabe que a Guiné não tem governantes à altura dos seus pergaminhos.

Como é que um país que nem tem dinheiro para a realização das suas eleições pode ter uma companhia aérea sustentável? Ouviu-se, mais uma vez, disparate de quem não tem a mínima noção da realidade do país de que é membro do “governo”, dizer em jeito de chantagem que a Guiné-Bissau vai criar a sua própria transportadora aérea, deixando de depender da TAP. Uma coisa que o porta-voz do “governo” guineense não sabe é que a TAP voa para a Guiné-Bissau por razões meramente políticas de ajuda ao povo guineense. Mas, já que querem libertar-se da ajuda generosa de Portugal, então deixem de mandar para cá as centenas de doentes por ano para tratamento médico-hospitalar a custo zero. Ora, o acordo estabelecido entre os dois Estados na área da saúde era que a Guiné deveria comparticipar nas despesas decorrentes do tratamento hospitalar dos doentes vindos da Guiné, mas este “país” nunca cumpriu as suas obrigações financeiras.

Como se isso não bastasse, muitos governantes escudam-se na nacionalidade portuguesa para se poderem deslocar a Portugal e ao espaço da União Europeia, quando precisam dos cuidados médicos ou tratar dos assuntos pessoais. Mesmo assim não têm escrúpulo de falar de Portugal como se fosse uma “república das bananas”, situada ao mesmo nível da Guiné-Bissau. É pena que neste país qualquer pessoa julgue poder ser ministro ou Presidente da República, mesmo não possuindo perfil ético e competências para exercer cabalmente esses cargos.

Como cidadão português e guineense de origem, sinto-me indignado com as ofensas indecorosas proferidas contra o Presidente da República, prof. Cavaco Silva, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, dr. Rui Machete, por quem não tem idoneidade moral e preparação política para representar o humilde e honroso povo guineense.
Por isso venho, em meu nome próprio e no da comunidade imigrante guineense, que tenho servido com toda a dedicação e que, por sua vez, tem contribuído através das suas remessas para ajudar o país de origem, manifestar publicamente o nosso repúdio pelos insultos contra os dois altos dignatários da Nação e, ao mesmo tempo, mostrar-lhes também a nossa solidariedade na defesa da causa comum.

Convenhamos que tanto o povo como a comunidade guineense em Portugal não se revêem nas condutas desviantes dos salteadores do poder que está na rua e queremos manter os laços históricos com o povo português independentemente das politiquices dos (des)governantes do país de faz de conta.
Com os seus irresponsáveis e criminosos actos a soldo de algum dinheiro, só têm causado enormes prejuízos ao país e à diáspora guineense em Portugal, bem como àqueles que se servem de Portugal, provenientes de outros países, para viajar até à Guiné e vice-versa.
Portugal é o país que mais tem ajudado a Guiné desde a independência até hoje e tem sido o lobby da Guiné junto da comunidade internacional.

(Dirigente da Associação Guineense de Solidariedade Social)
 
 (in:Publico)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Lucinda Barbosa: “Se a Guiné fosse um país com muito petróleo já lá estariam os capacetes azuis”

"Sol, suor, e o verde e mar". Lucinda Barbosa, ex-directora da Polícia Judiciária da Guiné-Bissau, evoca uma frase do hino nacional, escrito por Luís Cabral, fundador do PAIGC, para apontar o dedo aos militares que traíram todos os que lutaram pela libertação do país. "Eles", os que usam farda, "não pensam nisso", diz a magistrada.


As memórias de Lucinda Barbosa são uma denúncia pungente do estado calamitoso a que chegou a Guiné-Bissau.

 


Lucinda Barbosa tem tristeza e revolta na voz. Estes sentimentos materializam-se em palavras e vêm acompanhados de uma inquestionável vontade de ajudar o seu país a ser diferente. O país de Lucinda Barbosa é a Guiné-Bissau, onde ela foi directora nacional da Polícia Judiciária, entre 2007 e 2011. Prendeu narcotraficantes, foi ameaçada de morte por generais e saiu da Guiné empurrada por mais um golpe de Estado. Na altura, em 2012, já exercia as funções de directora nacional de Viação Terrestre. Os militares rebentaram com a porta do seu gabinete e "meteram lá a pessoa que entenderam por bem. Já era visada por eles", conta a jurista, de 52 anos.

Tímida, Lucinda Barbosa deixa-se fotografar nos corredores da Fundação Pro Dignitate. Maria Barroso, que dirige a instituição, chega, cumprimenta-a e lança o desafio: "você devia era candidatar-se a presidente da Guiné". "Bondade da doutora", comenta ela, confrontada com a probabilidade do desejo de Maria Barroso se tornar realidade.

Agora, já sentada, dispõe-se à conversa. As perguntas são dispensáveis. Basta pontuar o texto de observações para entender a gravidade da situação na Guiné-Bissau, identificar os responsáveis pelo clima de intimidação que tomou conta do país e conhecer os tormentos por que passou Lucinda Barbosa.

Em 2007, a então ministra da Justiça, Carmelita Pires, convidou-a para dirigir a Polícia Judiciária, sendo, por inerência, presidente na Unidade Autónoma de Combate ao Narcotráfico.
Aceitei o desafio porque entendi que podia fazer alguma coisa pelo meu país, naquela instituição em concreto. E foi assim que assumi funções, em Julho de 2007, sabendo da situação que existia e das pessoas envolvidas. Mas isso não me assustava porque entendia que tinha a razão do meu lado. E, como crente, sou católica, achava que Deus me protegeria. E protegeu. Passei tormentos e estou sã e salva porque tive a protecção de Deus. Eu andava praticamente sem segurança. Não vale a pena ter 20 ou 30 pessoas a proteger-nos porque, de um momento para o outro, pode acabar-se com a vida de uma pessoa. Foi isso que aconteceu ao presidente da República em 2009." 

Em Agosto de 2007, a investigação de Lucinda Barbosa dá os primeiros frutos. A Polícia Judiciária detém dois colombianos com uma avultada quantia de dinheiro, armas e munições. Um dos capturados é Pablo Camacho, capitão das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que já tinha cumprindo pena de prisão em Miami, nos EUA, por tráfico de droga. Esta vitória na luta contra o narcotráfico foi efémera. 
"Infelizmente, 15 dias após a prisão preventiva, sei que houve muita pressão da procuradoria-geral e puseram aqueles homens em liberdade. A única coisa que consegui foi cativar o dinheiro, 94.500 euros e um milhão e meio de CFA's [moeda guineense, o equivalente a 22 mil euros], porque tinha entrado ilegalmente na Guiné-Bissau. Confiscámos o valor e, na altura, abriu-se uma conta no tesouro público para utilizar no combate ao narcotráfico. Foi assim que se compraram as primeiras viaturas novas para a Polícia Judiciária. Foi uma decepção, mas não fiquei logo desencorajada. Eu já conhecia o nosso sistema judiciário e sabia que havia muita corrupção. Tinha que lutar para inverter aquela situação. Sendo uma luta, não se deve parar logo. Continuámos a fazer o nosso trabalho e pressenti que podia ajudar. Quando iniciámos o trabalho, o tráfico inverteu-se. Deixou de ser visível. Escondeu-se. Foi pela nossa determinação."

Lucinda Barbosa atarefou-se ao longo de quatro anos, período ao fim do qual decidiu pedir a demissão. A insegurança era cada vez maior e podia tornar-se trágica.
"Entendi que as ameaças eram demasiadas. Entendi que aquelas ameaças não eram só para mim e podiam descambar. As ameaças eram feitas em reuniões por generais como o Indjai [António Indjai, chefe do estado Maior das Forças Armadas], o Bubu [José Américo Bubu Na Tchuto, chefe da Marinha] e outros. Sei que o Indjai teve reuniões com o antigo presidente, já falecido, dizendo que eu estava a persegui-lo. Entendi que já não havia apoio. No início, as minhas filhas viviam lá comigo. Depois acabei por mandá-las para aqui [Portugal]. Porque, estando lá, com as minhas filhas ao lado, se não fosse apanhada, podiam ser elas a pagar. Quero voltar, mas de momento acho que é bom evitar. Há momentos em que uma pessoa, por mais que seja valente, não pode lutar contra alguém que não tem um raciocínio lógico das coisas. Decidi dar algum tempo para ver se a situação melhora. Ninguém é herói para estar aí a enfrentar coisas que são impossíveis. Sei que falaram que estou cá [em Lisboa] para dar informações. Eu não preciso de estar cá para dar informações porque o trabalho foi feito estando eu ainda na Guiné. Trabalhei abertamente com o FBI e com a DEA [organismo norte-americano de combate ao tráfico de droga], com autorização do Ministério." 

Neste momento da conversa, Lucinda Barbosa é incapaz de controlar as emoções. Faz um longo silêncio. Lágrimas afloram-lhe nos olhos. Suspira. Bebe água e pede desculpa. Sem necessidade.
"Nós somos vítimas desta situação. Imaginem o que é uma pessoa iniciar a sua juventude e depois… Ainda no liceu, em 80, tivemos um golpe de Estado. Terminei os estudos, pensando que ia contribuir e ter paz e estabilidade no meu país e não tive. Fiz todos os esforços até chegar ao tempo de ter as filhas, e sofrer com essas filhas. Acabei a magistratura. Voltei para a Guiné e o que é que houve? O 7 de Junho. As crianças ficaram traumatizadas. É a convulsão consecutiva. Sucessivamente. Uma pessoa vive toda a sua vida em convulsões sem razões de ser. E, agora, por último, estava mesmo a sacrificar a minha vida e vai tudo por água abaixo. Como é possível? Com 50 e tal anos e não se construir nada. Por isso, muitos aproveitam para entrar na corrupção e ter tudo de um dia para o outro. Quando falo de mim, falo da minha geração e dos mais novos que não conheceram a paz. Que só conhecem a violência."


"A comunidade internacional não quer investir porque a Guiné é pobre. Se fossemos um país com muito petróleo, já estariam lá capacetes azuis.
Nós somos civis. Não temos armas. Não temos nada. A maioria do povo da Guiné-Bissau é refém." 

A ideia generalizada é a de que a Guiné-Bissau se transformou num narco-estado. Sem rei nem roque. Lucinda Barbosa contesta esta percepção.
"Seria um narco-estado se fosse o Estado da Guiné a fazer da droga um modo de vida. O que não acontece. Eu e outras pessoas que fizeram e fazem parte do Estado estamos isentas da questão da droga. Mas alguns dos elementos das forças armadas, políticos e deputados, são suspeitos. É pena que não tivéssemos tido meios suficientes para fazer um trabalho que desmantelasse toda essa gente. A Guiné não é um narco-estado. A maioria da população da Guiné, que vive na extrema pobreza, não conhece droga."

Lucinda Barbosa acredita que Ramos-Horta, o representante especial da ONU na Guiné, está a fazer o melhor que pode para devolver a estabilidade ao seu país, mas lamenta o desinteresse generalizado pelo seu país.
"Acho que a comunidade internacional não quer investir porque a Guiné é pobre. Se fossemos um país com muito petróleo, já estariam lá capacetes azuis. Já teriam reposto a ordem. Nós somos civis. Não temos armas. Não temos nada. A maioria do povo da Guiné-Bissau é refém." 

A situação da Guiné-Bissau só mudará, em definitivo, quando houver uma reforma das forças armadas, que têm vindo a aprisionar o país. Sem ela, Lucinda Barbosa não acredita que as eleições, ainda sem data marcada, mudem alguma coisa. 
"A reforma das forças armadas é a que gera mais instabilidade no país, porque eles [os militares] têm armas e utilizam-nas. Acho que já não temos forças armadas porque os que lá estão, infelizmente, estão a estragar o nome dos nossos antigos combatentes. Se formos recensear os antigos combatentes que ficaram nos quartéis, não chegam a 20%. Muitos dos que agora são militares, em 1998 eram delinquentes. Os combates, em 1998, eram na zona onde havia uma prisão e eles evadiram-se e entraram nas forças armadas. Para mim, nem vale a pena termos militares. Basta preparar bem os polícias e refundar a Guiné-Bissau."

Em Abril deste ano, os norte-americanos prenderam, em águas internacionais, Bubu Na Tchuto, estando a julgá-lo nos EUA por tráfico de droga. A magistrada espera uma condenação.
"Dele e de outros. Já que a Guiné não faz nada, outros que façam. Ele traiu o povo, porque a farda da Guiné custou suor e sangue dos nossos irmãos. Eles não pensam nisso."


(p.s.  Artigo publicado inicialmente a 25 de Outubro de 2013)

(in: negócios)

 


Guiné-Bissau aguarda definições sobre próximas eleições

A Guiné-Bissau tenta se manter em pé apesar da corrupção, do tráfico de drogas e da pobreza. A comunidade internacional e os cidadãos guineenses depositam na realização das próximas eleições a esperança de pegar o fio da meada para a luta contra o crime organizado.



Nos últimos anos o país passou a ocupar uma posição estratégica para a rota do tráfico de drogas produzidas na América Latina, que são transportadas pela África Ocidental e distribuídas para o consumo na Europa. Apesar dos esforços para a reestruturação, a situação política do país é instável. As eleições marcadas para 24 de novembro foram adiadas pelo presidente do governo de transição, Manuel Serifo Nhamadjo e pelos principais partidos políticos do país, devido a falta de fundos para realização do pleito com garantia. As novas datas propostas seriam 23 de fevereiro ou dois de março.

Em busca de futuras ações mais eficazes, a situação do crime organizado em Guiné-Bissau e as missões de paz enviadas pelas Nações Unidas ao país foram analisadas por recente estudo realizado pelo International Peace Institute, com sedes em Viena e Nova York, com recursos dos governos suíço e norueguês.

Os pesquisadores concluem que o caminho para alcançar a estabilidade depende de três intervenções. A primeira providência é deixar clara a intolerância à impunidade para crimes de tráfico de drogas. A segunda é promover um esforço para reduzir as forças militares na Guiné- Bissau, e durante o processo, desmantelar as conexões com as redes de tráfico e finalmente manter o compromisso de construir a paz e garantir a realização das eleições.

 
Por Heloísa Broggiato
Viena, Áustria
A Guiné-Bissau tenta se manter em pé apesar da corrupção, do tráfico de drogas e da pobreza. A comunidade internacional e os cidadãos guineenses depositam na realização das próximas eleições a esperança de pegar o fio da meada para a luta contra o crime organizado.
Nos últimos anos o país passou a ocupar uma posição estratégica para a rota do tráfico de drogas produzidas na América Latina, que são transportadas pela África Ocidental e distribuídas para o consumo na Europa. Apesar dos esforços para a reestruturação, a situação política do país é instável. As eleições marcadas para 24 de novembro foram adiadas pelo presidente do governo de transição, Manuel Serifo Nhamadjo e pelos principais partidos políticos do país, devido a falta de fundos para realização do pleito com garantia. As novas datas propostas seriam 23 de fevereiro ou dois de março.

Em busca de futuras ações mais eficazes, a situação do crime organizado em Guiné-Bissau e as missões de paz enviadas pelas Nações Unidas ao país foram analisadas por recente estudo realizado pelo International Peace Institute, com sedes em Viena e Nova York, com recursos dos governos suíço e norueguês.

Os pesquisadores concluem que o caminho para alcançar a estabilidade depende de três intervenções. A primeira providência é deixar clara a intolerância à impunidade para crimes de tráfico de drogas. A segunda é promover um esforço para reduzir as forças militares na Guiné- Bissau, e durante o processo, desmantelar as conexões com as redes de tráfico e finalmente manter o compromisso de construir a paz e garantir a realização das eleições.

Turbulências


Em 12 de abril de 2012, entre o primeiro e o segundo turno das últimas eleições, a Guiné-Bissau passou por um golpe de Estado liderado por militares, que resultou na prisão do presidente interino, Raimundo Pereira, e do então primeiro ministro, Carlos Gomes Júnior.

aram um novo governo civil, dando o cargo a Serifo Nhamadjo. O passo seguinte foi criar um Conselho Nacional de Transição, que governaria o país por um ano, mas segue no poder.

Segundo o estudo do IPI, militares e uma pequena elite de empresários do país dominam o tráfico de drogas. De acordo com os dados levantados durante a pesquisa, após o golpe houve um aumento no volume de circulação da carga ilícita, chegando a 35 toneladas entre janeiro e setembro de 2012. Mas as estimativas variam. Dados recentes da UNODC indicam redução no volume de cargas traficadas via Guiné-Bissau.

Assim, a tomada de poder por parte dos militares apenas manteve a situação do tráfico tão favorável quanto possível. A resposta internacional ao problema foi debatida em reuniões de alto nível, mas os resultados obtidos foram pouco significativos. O estudo aponta uma ligação entre a crise de governança no país e o tráfico ilícito, porém a pesquisa também ressalta que as bases frágeis da Guiné-Bissau são constantemente ameaçadas por problemas econômicos, contribuindo com a instabilidade local.

O engajamento da comunidade internacional envolveu o trabalho de várias organizações não governamentais, entre as quais a UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime Organizado.


UNODC em Guiné-Bissau


Christian Schneider é doutor em Ciência Política pela Universidade e Zurique e esteve em Guiné-Bissau durante a acção da UNODC no combate ao tráfico de drogas.

Segundo o pesquisador, a África era uma região pouco associada ao tráfico de drogas, já que a cocaína era produzida na América Latina e a heroína, na Ásia Central e Sudoeste da Ásia. O consumo ficava restrito à América do Norte, Europa e Austrália. Antes da mudança de rota do tráfico a droga era transportada em voos comerciais por meio de “mulas”, passageiros pagos para viajar com a droga presa ao corpo ou camuflada em bagagens.

Cerca de uma tonelada de cocaína passava pela África Ocidental a cada ano. Entre 2005 e 2009 o panorama mudou. O volume de cocaína que circulou pela região chegou a 12 toneladas anuais. Estava feita a conexão entre a América Latina e a África Ocidental. A comunidade internacional passou a temer maiores instabilidades na região africana por causa do deficiente sistema de segurança de países como a Guiné-Bissau.

Finalmente, o assunto entrou para a pauta internacional. O alarme foi soado e a UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, com sede em Viena, orquestrou um projecto cujo objectivo era principalmente a capacitação de profissionais e aparelhamento da polícia, com início em 2010. Hoje, segundo a informação do funcionário do Escritório Regional da UNODC no Senegal, Abdulay Sisey resta apenas um profissional em Bissau envolvido nas actividades de combate ao tráfico de drogas.

Em entrevista  Schneider avalia as expectativas da comunidade internacional, os sucessos da organização em Bissau e os obstáculos enfrentados pelos profissionais envolvidos na operação.

Como Guiné-Bissau entrou para a pauta internacional e passou a chamar a atenção de pesquisadores e das organizações internacionais?


Christian Schneider: Meu trabalho de pesquisa envolveu a relação entre as organizações internacionais e os estados. E a questão é saber quem governa quem. O caso da UNODC é interessante porque é uma organização na qual as doações dos Estados muitas vezes são destinadas a projetos específicos. Depois de produzir uma sequência de relatórios sobre o que acontecia na Guiné Bissau conseguiu trazer o assunto para a pauta internacional. Assim, a Guiné Bissau se tornou um caso claro de interesse de alguns Estados membros da organização e uma ação concreta foi organizada principalmente com o apoio de países consumidores da droga que sai da América Latina, como Espanha, Itália e Reino Unido.

Como a UNODC actua no combate ao tráfico de drogas na Guiné Bissau?

C.S.: O projeto da UNODC conduzido na Guiné Bissau teve como foco principal a luta contra o tráfico de cocaína. A estratégia foi o investimento em acções para a capacitação de recursos humanos, aparelhamento da polícia e a luta contra o crime organizado. A acção estava prevista para durar 40 meses. Os países interessados em resolver o problema se organizaram e conseguiram que o projecto fosse financiado pela Comissão Europeia. Apenas isso já configura uma grande mobilização.

Quais foram os principais obstáculos enfrentados pela organização durante a realização do projecto na Guiné-Bissau? 

C.S.: O país é desprovido de muitos recursos. Até o trabalho mais básico da polícia carece de condições mínimas e essa é uma das razões para não criar muitas expectativas. Mas quando uma organização internacional como a UNODC apresenta um projecto a eventuais doadores, não há margem de negociação, caso algo venha a dar errado. Durante as entrevistas que realizei em Bissau, ficaram claras as tensões entre os funcionários que se beneficiaram com a acção da UNODC e os demais. Para os que receberam computadores e motocicletas em nome das instituições locais, o projecto foi um sucesso. Porém os funcionários das organizações internacionais em Bissau são muito francos quando dizem que nem tudo correu tão bem quanto era esperado.

 Em que casos, por exemplo?

C.S.: O escritório da Interpol em Bissau foi equipado com um sistema de informação e veículos que possibilitariam o alcance das autoridades a áreas mais distantes da capital. De fato, esses serviços foram acessados pela população mais de 200 vezes. Foram denúncias e tentativas de colaboração com as investigações. Isso mostra que as forças policiais se tornaram mais integradas, inclusive para investigações internacionais. O consultor da ONU para assuntos policiais, em Bissau informou que nenhuma dessas chamadas recebeu resposta ou alguma denúncia foi investigada.

Sabe-se também que uma parte do dinheiro destinado à compra de veículos acabou sendo usado para pagar o salário de funcionários que utilizaram a verba para a manutenção de suas famílias. Porém o crime organizado não pode ser investigado em outras áreas do país por falta de meios de transporte da polícia. A operação acabou ficando concentrada apenas na capital Bissau.

 Quais foram os resultados positivos da acção da UNODC em Guiné Bissau?

C.S.: O envolvimento de países da África ocidental em tráfico de drogas não é recente. É importante ressaltar que a UNODC aproveitou essa oportunidade para se estabelecer no local e chamar a atenção da mídia e da comunidade internacional para um problema que já ocorre há algum tempo.

 Qual a relação entre o tráfico de drogas em Guiné Bissau e a estabilidade política do país?

C.S.: A Guiné Bissau tem estruturas muito frágeis, porém o tráfico de drogas é apenas mais um factor que contribui com a instabilidade, mas não é o único.

 Houve alguma flutuação no volume do tráfico de drogas no país desde a ação da UNODC?

C.S.: Os números não são tão significativos. O importante é saber o que a flutuação no volume de tráfico reflecte. Não é possível saber se há realmente menos cocaína transitando pela África Ocidental ou se os traficantes se aproveitam da instabilidade da situação e passam a operar de forma mais eficiente. Portanto, nem sempre o número absoluto de carregamentos traficados tem um significado claro.







sábado, 16 de novembro de 2013

Guiné-Bissau aguarda definições sobre próximas eleições

A Guiné-Bissau tenta se manter em pé apesar da corrupção, do tráfico de drogas e da pobreza. A comunidade internacional e os cidadãos guineenses depositam na realização das próximas eleições a esperança de pegar o fio da meada para a luta contra o crime organizado. (*)


Cocaína confiscada pela polícia de Guiné-Bissau foi apresentada à imprensa em 21 de março de 2012. (Reuters)

Nos últimos anos o país passou a ocupar uma posição estratégica para a rota do tráfico de drogas produzidas na América Latina, que são transportadas pela África Ocidental e distribuídas para o consumo na Europa. Apesar dos esforços para a reestruturação, a situação política do país é instável. As eleições marcadas para 24 de Novembro foram adiadas pelo presidente do governo de transição, Manuel Serifo Nhamadjo e pelos principais partidos políticos do país, devido a falta de fundos para realização do pleito com garantia. As novas datas propostas seriam 23 de Fevereiro ou dois de Março.

Em busca de futuras acções mais eficazes, a situação do crime organizado em Guiné-Bissau e as missões de paz enviadas pelas Nações Unidas ao país foram analisadas por recente estudo realizado pelo International Peace Institute, com sedes em Viena e Nova York, com recursos dos governos suíço e norueguês.

Os pesquisadores concluem que o caminho para alcançar a estabilidade depende de três intervenções. A primeira providência é deixar clara a intolerância à impunidade para crimes de tráfico de drogas. A segunda é promover um esforço para reduzir as forças militares na Guiné- Bissau, e durante o processo, desmantelar as conexões com as redes de tráfico e finalmente manter o compromisso de construir a paz e garantir a realização das eleições.

 

Turbulências

Em 12 de abril de 2012, entre o primeiro e o segundo turno das últimas eleições, a Guiné-Bissau passou por um golpe de Estado liderado por militares, que resultou na prisão do presidente interino, Raimundo Pereira, e do então primeiro ministro, Carlos Gomes Júnior. Em seguida, os golpistas instalaram um novo governo civil, dando o cargo a Serifo Nhamadjo. O passo seguinte foi criar um Conselho Nacional de Transição, que governaria o país por um ano, mas segue no poder.

Segundo o estudo do IPI, militares e uma pequena elite de empresários do país dominam o tráfico de drogas. De acordo com os dados levantados durante a pesquisa, após o golpe houve um aumento no volume de circulação da carga ilícita, chegando a 35 toneladas entre janeiro e setembro de 2012. Mas as estimativas variam. Dados recentes da UNODC indicam redução no volume de cargas traficadas via Guiné-Bissau.

Assim, a tomada de poder por parte dos militares apenas manteve a situação do tráfico tão favorável quanto possível. A resposta internacional ao problema foi debatida em reuniões de alto nível, mas os resultados obtidos foram pouco significativos. O estudo aponta uma ligação entre a crise de governança no país e o tráfico ilícito, porém a pesquisa também ressalta que as bases frágeis da Guiné-Bissau são constantemente ameaçadas por problemas económicos, contribuindo com a instabilidade local.

O engajamento da comunidade internacional envolveu o trabalho de várias organizações não governamentais, entre as quais a UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime Organizado.


UNODC em Guiné-Bissau

Christian Schneider é doutor em Ciência Política pela Universidade e Zurique e esteve em Guiné-Bissau durante a acção da UNODC no combate ao tráfico de drogas.

Segundo o pesquisador, a África era uma região pouco associada ao tráfico de drogas, já que a cocaína era produzida na América Latina e a heroína, na Ásia Central e Sudoeste da Ásia. O consumo ficava restrito à América do Norte, Europa e Austrália. Antes da mudança de rota do tráfico a droga era transportada em voos comerciais por meio de “mulas”, passageiros pagos para viajar com a droga presa ao corpo ou camuflada em bagagens.

Cerca de uma tonelada de cocaína passava pela África Ocidental a cada ano. Entre 2005 e 2009 o panorama mudou. O volume de cocaína que circulou pela região chegou a 12 toneladas anuais. Estava feita a conexão entre a América Latina e a África Ocidental. A comunidade internacional passou a temer maiores instabilidades na região africana por causa do deficiente sistema de segurança de países como a Guiné-Bissau.

Finalmente, o assunto entrou para a pauta internacional. O alarme foi soado e a UNODC - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, com sede em Viena, orquestrou um projecto cujo objectivo era principalmente a capacitação de profissionais e aparelhamento da polícia, com início em 2010. Hoje, segundo a informação do funcionário do Escritório Regional da UNODC no Senegal, Abdulay Sisey resta apenas um profissional em Bissau envolvido nas atividades de combate ao tráfico de drogas.

Em entrevista à swissinfo, Schneider avalia as expectativas da comunidade internacional, os sucessos da organização em Bissau e os obstáculos enfrentados pelos profissionais envolvidos na operação.


Como Guiné-Bissau entrou para a pauta internacional e passou a chamar a atenção de pesquisadores e das organizações internacionais?

Christian Schneider: Meu trabalho de pesquisa envolveu a relação entre as organizações internacionais e os estados. E a questão é saber quem governa quem. O caso da UNODC é interessante porque é uma organização na qual as doações dos Estados muitas vezes são destinadas a projectos específicos. Depois de produzir uma sequência de relatórios sobre o que acontecia na Guiné Bissau conseguiu trazer o assunto para a pauta internacional. Assim, a Guiné Bissau se tornou um caso claro de interesse de alguns Estados membros da organização e uma ação concreta foi organizada principalmente com o apoio de países consumidores da droga que sai da América Latina, como Espanha, Itália e Reino Unido.

 

Como a UNODC atua no combate ao tráfico de drogas na Guiné Bissau?

C.S.: O projeto da UNODC conduzido na Guiné Bissau teve como foco principal a luta contra o tráfico de cocaína. A estratégia foi o investimento em ações para a capacitação de recursos humanos, aparelhamento da polícia e a luta contra o crime organizado. A ação estava prevista para durar 40 meses. Os países interessados em resolver o problema se organizaram e conseguiram que o projeto fosse financiado pela Comissão Europeia. Apenas isso já configura uma grande mobilização.


Quais foram os principais obstáculos enfrentados pela organização durante a realização do projeto na Guiné-Bissau?

C.S.: O país é desprovido de muitos recursos. Até o trabalho mais básico da polícia carece de condições mínimas e essa é uma das razões para não criar muitas expectativas. Mas quando uma organização internacional como a UNODC apresenta um projeto a eventuais doadores, não há margem de negociação, caso algo venha a dar errado. Durante as entrevistas que realizei em Bissau, ficaram claras as tensões entre os funcionários que se beneficiaram com a ação da UNODC e os demais. Para os que receberam computadores e motocicletas em nome das instituições locais, o projeto foi um sucesso. Porém os funcionários das organizações internacionais em Bissau são muito francos quando dizem que nem tudo correu tão bem quanto era esperado.
 

Em que casos, por exemplo?

C.S.: O escritório da Interpol em Bissau foi equipado com um sistema de informação e veículos que possibilitariam o alcance das autoridades a áreas mais distantes da capital. De fato, esses serviços foram acessados pela população mais de 200 vezes. Foram denúncias e tentativas de colaboração com as investigações. Isso mostra que as forças policiais se tornaram mais integradas, inclusive para investigações internacionais. O consultor da ONU para assuntos policiais, em Bissau informou que nenhuma dessas chamadas recebeu resposta ou alguma denúncia foi investigada.

Sabe-se também que uma parte do dinheiro destinado à compra de veículos acabou sendo usado para pagar o salário de funcionários que utilizaram a verba para a manutenção de suas famílias. Porém o crime organizado não pode ser investigado em outras áreas do país por falta de meios de transporte da polícia. A operação acabou ficando concentrada apenas na capital Bissau.

 

Quais foram os resultados positivos da ação da UNODC em Guiné Bissau?

C.S.: O envolvimento de países da África ocidental em tráfico de drogas não é recente. É importante ressaltar que a UNODC aproveitou essa oportunidade para se estabelecer no local e chamar a atenção da mídia e da comunidade internacional para um problema que já ocorre há algum tempo.

 

Qual a relação entre o tráfico de drogas em Guiné Bissau e a estabilidade política do país?

C.S.: A Guiné Bissau tem estruturas muito frágeis, porém o tráfico de drogas é apenas mais um fator que contribui com a instabilidade, mas não é o único.

 

Houve alguma flutuação no volume do tráfico de drogas no país desde a ação da UNODC?

C.S.: Os números não são tão significativos. O importante é saber o que a flutuação no volume de tráfico reflete. Não é possível saber se há realmente menos cocaína transitando pela África Ocidental ou se os traficantes se aproveitam da instabilidade da situação e passam a operar de forma mais eficiente. Portanto, nem sempre o número absoluto de carregamentos traficados tem um significado claro. 

(*) Por Heloísa Broggiato
Viena, Áustria -

 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

40, número bipolar ?

Dois analistas políticos da Guiné-Bissau de diferentes gerações pintam um quadro negro do país, que consideram estar longe das expectativas dos principais obreiros da independência, há 40 anos.



João de Barros, 63 anos, jornalista e diretor do jornal Gazeta de Bissau, nasceu antes da independência do país (em 1973), enquanto Bamba Koté, 35 anos, cientista político, nasceu já com a Guiné-Bissau independente.
Mesmo sendo de gerações diferentes, ambos têm a mesma visão: de que em 40 anos de independência "pouco foi feito que valesse a pena".
O diretor do primeiro jornal privado da Guiné-Bissau diz que o "único elemento" que os guineenses podem exibir ao mundo e que pode ser reconhecido como válido em 40 anos de independência "é o cineasta Flora Gomes".
"Fazer cinco longas-metragens num país como é a Guiné-Bissau é obra", defendeu João de Barros, que culpa a classe politica e militar por aquilo que considera ser um desastre nacional. 

O jovem cientista político Bamba Koté até compreende as dificuldades de afirmação do novo estado da Guiné-Bissau, mas, volvidos 40 anos, não aceita que se diga que o país está como está devido à falta de preparação dos responsáveis políticos e militares.
Koté, analista e comentador político da rádio Bombolom FM, diz ainda que nos primeiros anos da independência "fez-se muita coisa", nomeadamente, a adesão do país aos organismos internacionais, um "capital" que afirma estar a ser desperdiçado nos últimos anos. 

Nesse particular, João de Barros aponta a falta de qualidade dos quadros e uma geração de "dirigentes anacrónicos e desactualizados sem capacidade de prever o futuro", como factores que continuam a empurrar o país contra as regras internacionais de boa governação.
"A classe política guineense continua a fugir dos parâmetros internacionais de uma boa governação e isso é que nos tem conduzido para este desastre a que assistimos hoje", frisou João de Barros.
Para este analista, é de todo impossível desenvolver o país com os dirigentes atuais e os quadros residentes. 

A Diáspora guineense, com mais de dois mil médicos, outros tantos professores e técnicos qualificados, seria a solução, observou João de Barros, mas não acredita na abertura de espírito dos dirigentes para avançar nessa direcção.
No entanto, João de Barros afirma que o futuro da Guiné-Bissau "terá que ser outro" ao considerar que qualquer regime tem 40 anos de maturação.
"Está-se a chegar ao fim do regime que governou a Guiné-Bissau nestes 40 anos", defende João de Barros. 

O jovem Bamba Koté entende que o futuro até poderá ser risonho, desde que a Guiné-Bissau arranje mecanismos para "sair do impasse" em que se encontra, derivado das clivagens políticas que acabaram por ditar o bloqueio por parte da comunidade internacional.
"Há muita incerteza. Por exemplo, não sabemos se vamos ter eleições este ano ou não", observou, referindo-se às eleições gerais marcadas para 24 de novembro, mas para as quais falta dinheiro, que tem que ser dado pela comunidade internacional.
Para Bamba Koté, tirando as clivagens políticas, a Guiné-Bissau "tinha tudo para dar certo", por ser um país relativamente pequeno em tamanho (pouco mais que 36 mil quilómetros quadrados), com uma população reduzida (1,7 milhões de habitantes) e potencialmente rico em recursos naturais. 

João de Barros diz que o caso da Guiné-Bissau não é o único em África e aponta a vizinha Guiné-Conacri como um dos países potencialmente mais ricos do mundo, mas que devido à desorganização e corrupção é dos mais pobres do planeta.
"Quando falta qualidade, com a corrupção e a desorganização, mesmo sendo potencialmente rico, é-se sempre pobre. É o nosso caso", concluiu João de Barros. 

(in:lusa)

 

40 anos de independência vistos por Aly Silva

(recorte do sitio "Morabeza Rádio")



Ouvir a entrevista, AQUI


sábado, 14 de setembro de 2013

Pedro Pires acusa militares da Guiné de "tirania e delinquência"

O ex-Presidente de Cabo Verde era, há 40 anos, um dos principais comandantes militares do PAIGC, em nome dos quais falou na proclamação da independência da Guiné-Bissau.


Volvidos 40 anos sobre a proclamação da independência da Guiné Bissau, as suas Forças Armadas transfiguraram-se "em instrumento de tirania e de delinquência". A acusação é feita pelo ex-Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, que lutou de armas na mão pela independência da Guiné.
Pedro Pires, de 79 anos é um dos mais respeitados dirigentes dos movimentos de libertação, fala com a autoridade reforçada de quem representou as Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) na cerimónia de proclamação da independência da Guiné-Bissau, no dia 24 de Setembro de 1973.
Numa entrevista concedida ao Expresso a propósito dos 40 anos da independência da Guiné-Bissau, Pedro Pires entende que o "objetivo principal" do PAIGC foi alcançado: "as independências das colónias da Guiné-Bissau e de Cabo Verde". Reconhece, no entanto, que "a segunda parte" do projeto - a unidade daqueles dois territórios - "fracassou". Sem nunca mencionar nomes, diz que a segunda dimensão do projeto do PAIGC e do seu líder, Amílcar Cabral, "foi interrompido pelo golpe de Estado que teve lugar na Guiné". Pedro Pires alude ao golpe militar de 14 de Novembro de 1980, em que o Presidente da República Luís Cabral (meio irmão de Amílcar) foi deposto por "Nino" Vieira, que assumiu então a chefia do Estado.

ASSASSINATO DE AMÍLCAR CABRAL E O RAPTO DE ARISTIDES PEREIRA

 Para o antigo primeiro-ministro e Presidente da República de Cabo Verde, que foi um dos principais comandantes da guerrilha do PAIGC na Guiné, "não seria objetivo nem razoável pretender atribuir responsabilidades unicamente a Amílcar Cabral. O insucesso foi, em grande medida, da responsabilidade dos seus sucessores que não souberam construir as condições subjectivas e os mecanismos políticos para a viabilização do projecto".
O projecto de unidade entre a Guiné e Cabo Verde terá começado a ser posto em causa aquando do assassinato do próprio Amílcar Cabral, em Janeiro de 1973. Baleado por um dos seus guarda-costas, a morte do fundador do PAIGC acentuou a enorme tensão existente entre guineenses e cabo-verdianos. "Estou em crer que o assassinato do Amílcar" e o simultâneo "rapto e tortura do Aristides Pereira enfraqueceram, em boa medida, a confiança necessária" entre os dirigentes e militantes do partido.
Recusando-se a especular "sobre como faria Amílcar Cabral para garantir a realização do projeto unitário", prefere manifestar uma outra "inquietação", não tanto sobre o passado, mas sobre o presente: "Como foi possível a transfiguração das valorosas FARP em instrumento de tirania e de delinquência?" 

 OS EUA QUEREM CAPTURAR O GENERAL ANTÓNIO INDJAI

Como se sabe, as Forças Armadas da Guiné têm estado no centro da vida política e económica do país, promovendo sucessivos golpes de Estado pelo menos desde Maio de 1999, quando uma Junta Militar liderada pelo brigadeiro Ansumane Mané tentou depor o Presidente da República, Nino Vieira. Ansumane e Nino foram dois dos muitos militares que, desde então, foram assassinados pelos seus camaradas de armas, quase sempre em circunstância de extrema violência.
O atual poder em Bissau resultou de mais um desses golpes de Estado, consumado a 12 de Abril do ano passado. Um dos homens mais poderosos do país, o almirante Bubo Na Tchuto, foi detido em Abril passado em águas internacionais por forças da Agência Antidroga dos EUA (DEA), aguardando-se o início do seu julgamento. Os EUA estão mesmo decididos a capturar o atual Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, general António Injai, considerado o homem-forte do país. Injai é suspeito, tal como o seu camarada da Marinha, Na Tchuto, de tráfico de droga e de armas.

(in:expresso)