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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

É o Português que nos aproxima da tragédia da Guiné-Bissau

Actores de seis países lusófonos interpretam As Orações de Mansata, primeiro texto dramático publicado por um autor guineense, a partir de hoje no Theatro Circo, em Braga

Em palco ouvem-se expressões guineenses, as cordas de uma korá e alusões que recordam a história de um país cativo de um grupo militar. É da Guiné-Bissau que aqui se fala. Mas em As Orações de Mansata há actores de seis países diferentes e todos se entendem. É uma espécie de "milagre", diz o encenador, António Augusto Barros, justificado pela língua portuguesa.

Apesar das diferença, é a língua o elemento comum entre os 13 intérpretes em palco e toda a equipa criativa deste espectáculo que está em cena a partir de hoje no Theatro Circo, em Braga. Os artistas vêm de Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal e trabalharam, durante o último ano, em vários pontos do mundo para montarem este espectáculo que tem como ponto de partida um texto de um autor guineense.



(foto: Publico)

"É um exemplo concreto de que é possível, com pessoas de diferentes latitudes, criar um objecto único a partir do Português", afirma António Augusto Barros, encenador do espectáculo e presidente da Cena Lusófona, a associação portuguesa para o intercâmbio teatral fundada em 1995 com o objectivo de dinamizar a comunicação teatral entre os países de língua oficial portuguesa.

Esta estrutura co-produz o espectáculo juntamente com as companhias portuguesas Escola da Noite e Companhia de Teatro de Braga e os brasileiros do Bando de Olodum, de Salvador. As quatro companhias cedem dois actores cada uma a As Orações de Mansata, aos quais se juntam outros sete actores provenientes de países africanos. São jovens na casa dos 24 anos, vêm de grupos locais ainda não profissionalizados e têm talentos diferentes. Há os que cantam, os que dançam, ou trazem outras experiências das artes tradicionais, que partilharam entre si. "Conseguimos fazer destas diferenças todas um grupo", diz o encenador. É o tal "milagre" de que falava e que chega hoje ao Theatro Circo, ficando em cena até domingo.

No próximo mês continuam a digressão nacional no Teatro Garcia de Resende, em Évora (8 e 9 de Novembro), e Espaço Montemuro, em Castro Daire (dia 15). Em Março, voltam a reunir-se para a segunda fase de apresentações do espectáculo, que terá apresentações no Brasil, Galiza, Guiné-Bissau e Angola.
As Orações de Mansata já tinha sido apresentado em Coimbra, culminando quase um ano de trabalho em vários países lusófonos. O espectáculo começou a ser desenvolvido em Novembro do ano passado, com uma primeira oficina de teatro realizada em Angola, de onde saíram três actores para esta produção.

Em Abril, na Guiné-Bissau e, em Julho, em São Tomé e Príncipe, a Cena Lusófona organizou outros dois cursos de teatro de onde saíram quatro outros actores deste espectáculo. Depois disso, os sete actores recrutados em África juntaram-se aos seis profissionais, em Agosto, para a primeira fase de trabalho conjunto, que decorreu em S. Tomé e Príncipe. A última fase da montagem do espectáculo decorreu, desde Setembro, em Coimbra.

O espectáculo parte do primeiro texto dramático impresso da literatura guineense, com o mesmo título, e foi escrito pelo romancista Abdulai Sila a convite da Cena Lusófona. O autor escreveu entretanto Dois Tiros e Uma Gargalhada, a segunda parte de uma programada trilogia, mas As Orações de Mansata tem uma marca de texto inaugural, cruzando três influências fundamentais: a da cultura tradicional guineense, a produção artística contemporânea do país e o teatro de Shakespeare.
De resto, a peça teve como ponto de partida uma adaptação de Macbeth feita pelo grupo teatral da Guiné Os Fidalgos, que, em 2007, passou por exemplo pelo Teatro Nacional D. Maria II. Abdulai Sila viu ali uma hipótese interessante e tentou adaptar a temática de Macbeth à realidade guineense. O resultado final está muito longe dessa primeira intenção, mas reconhecem-se alguns traços shakesperianos: um clima de intriga e morte e uma história contada em vários níveis que se entrelaçam.

No entanto, é claramente visível um "ar bem africano", como descreve António Augusto Barros. A peça retrata a busca das Orações de Mansata que supostamente darão aos seus detentores os poderes necessários para dominar o povo, remetendo para o contexto histórico e social da Guiné-Bissau, entre o rapto da democracia e as manifestações da cultura tradicional. No espectáculo, há, de resto, afloramentos dessas manifestações com a presença de videntes e figuras religiosas. Não deixa, todavia, de ser um texto universal, defende o encenador. Ao fazer uma caricatura da luta pelo poder e da corrupção em qualquer país do mundo, a peça "universaliza-se" e é capaz de falar com vários públicos. O resto da comunicação é a língua portuguesa quem se encarrega de resolver.

(in:publico)

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