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Joseph Pulitzer

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Salvemos o Museu da Língua

O Museu da Língua Portuguesa não era apenas mais um museu, nem era apenas um Museu de São Paulo, ou do Brasil.


De dezembro de 2014 a março de 2015 exibiu a exposição portátil ‘Agustina Bessa-Luís, Vida e Obra’, que o João Botelho e eu realizámos, em 2009, para o Instituto Camões.

Entre 2010 e 2011 o Museu realizou a extraordinária exposição multimédia ‘Fernando Pessoa, Plural como o Universo’, que depois emprestou a Lisboa, esteve na Fundação Calouste Gulbenkian e foi considerada a melhor exposição do ano; sonhava ainda voltar a vê-la, desta vez no Terreiro do Paço, o grande palco do mundo cénico pessoano, onde de resto inicialmente esteve para ser exibida (mas isso é uma história triste que deixo para um momento menos triste); para 2016, o Museu da Língua projectava uma exposição sobre José Saramago.

Este Museu, sozinho, com uma pequena e eficientíssima equipa, fez mais pela cultura de língua portuguesa do que… ia escrever do que a CPLP, mas isso seria demasiado fácil, sobretudo desde que a CPLP se especializou em negociatas frustres com ditaduras infamantes.

Escrevo portanto assim: este Museu, sozinho, fez mais pela cultura de língua portuguesa do que o Ministério da Cultura que nos últimos anos Portugal não teve.

Este Museu realizou também inesquecíveis exposições sobre Guimarães Rosa e Clarice Lispector; e várias outras, que não consegui ver (sobre Jorge Amado e Oswaldo de Andrade, por exemplo).

Mais do que exposições, eram experiências literárias, mergulhos de intensa criatividade no universo estético de cada autor.

Além da exposição permanente (sobre a história e a riqueza vocabular da língua portuguesa, completamente interactiva e lúdica, sempre cheia de crianças brincando com as palavras) e das exposições temporárias, o Museu tinha um espectáculo intitulado Praça da Língua: um filme a três dimensões com uma exímia combinação de textos dos grandes autores da língua portuguesa.

Desde que o Museu abriu, em 2006, nunca fui a São Paulo sem correr para ele. Saía-se de lá com aquela energia que a beleza provoca, e que nos dá vontade de transformar o mundo: entendo que é para isso que servem os museus.

Um incêndio devorou este sítio mágico, instalado na estação da Luz, uma extraordinária obra arquitectónica, também ela bem simbólica: era ali que chegavam os emigrantes que fizeram a força e a grandeza de São Paulo.

Os responsáveis do Museu disseram já que todo o acervo (essencialmente virtual) do Museu pode ser recuperado, porque existem cópias noutros locais.

O ministro da Cultura de Portugal mostrou-se de imediato disponível para apoiar a recuperação – e muito bem, porque este Museu é um inestimável serviço que o Brasil presta à nossa comum língua e às nossas literaturas, que deviam ser muito mais comuns do que são.

No Brasil, Eça de Queiroz e Pessoa estudam-se na escola; em Portugal, nem Machado de Assis nem Drummond de Andrade fazem parte dos currículos escolares – quem perde somos nós.

São Paulo tem onze milhões de habitantes: é a maior capital da nossa língua. Há décadas que luto por um movimento transatlântico efectivo que traga a Portugal mais do que a música popular brasileira e que leve para o Brasil mais do que o fado.

Pode ser que deste trágico incêndio nasça uma nova consciência do tesouro precioso que é a língua portuguesa – e se olhe a sério para a literatura que esta língua produziu, e se faça alguma coisa para que o seu valor não permaneça quase secreto.
 
 (por: Inês Pedrosa)
 

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