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Joseph Pulitzer

sábado, 22 de novembro de 2014

A. Cabral: "Resistência Económica" (VII - IX)


RESISTÊNCIA ECONÓMICA - Amílcar Cabral




( VII )




Noutras terras, certas pessoas diziam que a agricultura era a arte de se tornar pobre, mas alegremente, sem cuidados. Na nossa terra talvez a agricultura seja a arte de ficar pobre para toda a vida, se de facto não mudarmos o tipo de agricultura na nossa terra, se não fizermos uma verdadeira revolução no plano agrícola na nossa terra, que tem condições muito boas para a agricultura, tanto na Guiné como em Cabo Verde, o que não é razão nenhuma para desastre na agricultura na nossa época, com tantas conquistas da ciência de hoje e que devem estar à disposição de todos os homens do mundo.

Só depois de avançarmos bem de facto com a nossa agricultora, é que podemos tirar da nossa terra um rendimento como deve ser. Temos a certeza que há terras nossas que podem produzir duas, três, quatro vezes mais do que aquilo que produzem hoje, se a técnica for melhorada, se se tratar a terra como deve ser, se se seleccionar as sementes, se se cuidar das plantas como deve ser, se trabalharmos muito e bem. Muitas terras nossas, se tiverem adubos, estrumes, se se juntar a agricultura com a criação de gado como deve ser, podemos aumentar a nossa produção de maneira extraordinária e, dentro desse quadro da agricultura, a produção de gado, a criação de gado em grande, gado de raça, podemos fazê-lo. Isso se de facto trabalhar-mos com vontade, se de facto nos dedicarmos muito, se cada homem se dedicar ao trabalho com vontade. Não podemos avançar na nossa terra, se criar galinhas no mato e apanhá-las quando for preciso para comer ou vende. Isso não é criar galinhas, é colher galinhas, como quem colhe tchabéu (fruto de palmeira) ou fole (fruto silvestre) no mato.

Temos que melhorar, de facto, tudo isso, para podermos pensar em fazer a nossa terra avançar noutros planos. No plano da indústria, por exemplo. E devemos pôr o problema mais concreto de que tanto na Guiné como em Cabo Verde, a pecuária, quer dizer, a criação de gado, pode ser uma riqueza duma importância grande, camaradas. A Guiné, no quadro africano em geral, é uma das terras que tem maior densidade de gado, mas Cabo Verde, apesar das suas secas e da falta de chuvas às vezes, Cabo Verde tem possibilidades ainda hoje, de exportar couros, peles, tanto para Portugal como para outros lados. Portanto estamos a ver que, devemos desde já , orientar a nossa vida nesse caminho, de ao lado da agricultura e exactamente para a agricultura poder avançar bem, desenvolver a nossa pecuária.

.........(considerações sobre situação de guerra.. e exemplos de comportamento de resistência económica, nas zonas libertadas ....em que é referenciado o consumo do gado pelo tugas, e mesmo exportando algum, e a fuga do gado para outros territórios.)...........

..... Houve um certo sucesso no trabalho político para levar as populações a cultivar muito, mas não temos mais nenhum sucesso neste trabalho, porque os nossos responsáveis políticos não têm ligado importância nenhuma à questão do desenvolvimento da nossa economia, na medida daquilo que podemos. Não é para fazermos milagres, mas na medida em que podemos realmente.

Nós somos um país agrícola, devemos levar toda a gente a produzir, a população, a tropa, mesmo os alunos das escolas, devem produzir. Demos ordens, por exemplo, para cada escola ter o seu campo de produção. Rara é a escola que fez o seu campo de produção. Mas os responsáveis passam, olham e não dizem nada; os dirigentes passam, olham e não dizem nada. E o resultado é que mesmo para os internatos é preciso que mandemos arroz para comerem: Podemos perguntar: o que é que essas crianças estão lá a fazer ?. Que interesse há em procurar saber ler, se não são capazes de lavrar um pedaço de terra ?. Não podemos deixar o nosso povo cair nesse vicio. Queremos aprender a ler, aprender tudo, mas temos de trabalhar para nos abastecermos, porque ninguém no mundo nos vai dar comida e um povo que não é capaz de produzir a sua comida ele mesmo, não pode ter mais nada na vida.

Temos que evitar, claro, toda a espécie de luxo, de finuras e partes gagas, no tempo da nossa luta, no tempo da nossa guerra. E aquele pouco que nós temos para os nossos armazéns do povo, temos de ser capazes de o poupar como deve ser e de o distribuir com justiça para que o maior número de gente possível possa conseguir beneficiar dessa vantagem que o nosso Partido criou.

E desde já temos que preparar os nossos planos para a economia da nossa terra na independência. Não é só amanhã que devemos fazê-lo, e desde já todos nós. O Partido tem que conhecer, como deve ser, as possibilidades concretas da nossa terra em todos os ramos da economia e preparar com consciência e baseado na ciência mesmo, planos para o desenvolvimento da nossa terra. Se não formos capazes disso, de estabelecer concretamente qual o caminho para podermos avançar na nossa terra, estabelecer concretamente uma política económica para a nossa terra, então estamos a morrer, a cansar-nos, a ser feridos, a estragar a nossa vida, para nada, porque não somos capazes de tirar o rendimento necessário para fazermos avançar o nosso povo para a frente, como lhe prometemos e por cima de tantos sacrifícios com esta guerra.
(continua)

  

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