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Joseph Pulitzer

domingo, 23 de novembro de 2014

A. Cabral: "Resistência Económica" (VIII - IX)


RESISTÊNCIA ECONÓMICA - Amílcar Cabral




( VIII )




“ Devemos orientar, hoje como amanhã, o nosso trabalho no plano da nossa resistência económica neste aspecto: fazer aumentar a produção da nossa terra, e fazer essa produção melhorar cada dia mais. Devemos ser capazes de tirar de cada pedaço de terra o máximo que ela pode dar. Devemos fazer economia, quer dizer, aumentar o ganho e diminuir as despesas. É uma coisa que custa muito a entender os camaradas...........”


-------- ( segue-se uma série de considerandos sobre as práticas na área económica dos militantes e combatentes, nas áreas libertadas e no binómio, população exército colonial. Nesta passagem do texto, Amilcar Cabral, enuncia uma série de más práticas em condições de guerra e no relacionamento com as populações por parte dos combatentes e conclui: ) ----------------


“ Sempre demos aos camaradas as palavras de ordem, para não abusarem dos bens do povo, das galinhas do povo, das vacas do povo. Se for ele a dar aceitamos, mas não devemos exigir-lhe nada, não devemos tomar nada à força. Nem sempre isso tem sido bem respeitado, nem sempre. Devemos estar conscientes de que aqueles que tentam explorar o nosso povo são criminosos, são favoráveis aos tuga, são inimigo do nosso povo, inimigos do nosso Partido........”


------- (mais alguns considerandos na luta de libertação, sobre os combatentes e dirigentes) --------


“Claro que para o futuro, temos outros problemas, muito importantes, como desenvolver e estabilizar o nosso mercado, dentro da nossa terra, desenvolver o máximo a troca com outros países, estabelecer, portanto, todo um sistema de comércio exterior, temos que estudar profundamente o problema dos preços na nossa terra. Às nós estamos nesta luta e pensamos que é só matar os tugas, lutar, tomar a terra. Os problemas estão é para a frente, camaradas. Temos que saber bem quem é que vai mandar dentro da nossa terra, na questão de comércio. O comércio ainda está nas mãos dos tugas, na nossa terra, mas nas mãos dos tugas ainda estão a importação e a exportação. Isso tem que ser estabelecido claramente na nossa terra amanhã. O nosso Partido tem de ser capaz de definir isso claramente, para não haver confusões. Para cortarmos desde o principio, todas as tendências para explorar o nosso povo amanhã.

E temos que evitar desde já todas as ideias erradas no quadro da nossa economia. Um erro grave, que fizemos na nossa terra até hoje, é o seguinte: é que ninguém paga imposto desde que foi libertado. Isso é um erro. Nós devíamos ser capazes de, depois de libertar uma área como Cubucaré, por exemplo, estabelecer imediatamente qual o imposto que o povo devia pagar. Imposto que , mesmo não sendo dinheiro, podia ser em ‘natureza’, como se diz, quer dizer: em produtos, para o nosso povo não perder o hábito de pagar impostos, para não pensar que quando tomarmos a nossa terra já não vai haver impostos.
 
Não há terra nenhuma que possa avançar sem pagar impostos. Isso foi um erro. Mas foi um erro necessário, no quadro da nossa mentalidade, que não era ainda nacionalista a sério. Não tínhamos ainda a consciência nacional a sério, nós. E no quadro da nossa terra, se, ao mesmo tempo que libertamos Cubucaré, cobrássemos impostos, talvez ainda a nossa população estivasse com os tugas. Por isso, cometemos esse erro, mas temos que esclarecer o povo, contar-lhe claro, como temos feito sempre, aliás, que não pagam impostos agora, mas amanhã terão que pagar. Grande parte do nosso povo sabe isso, entendeu bem já. Só que devemos explicar-lhe que o imposto que vai pagar amanhã não é como o dos tugas. Nem na sua base, quer dizer, no critério, na norma que é estabelecida para o pagamento de impostos, nem na sua finalidade, quer dizer, para que é que o imposto serve. O imposto na nossa terra tem que servir para elevar cada vez mais o nível de vida do nosso povo, no plano económico, social e cultural.

Devemos andar sempre com planos, se quisermos de facto ganhar a nossa resistência económica, que é contra os tugas hoje e contra o subdesenvolvimento amanhã, o atraso na

nossa terra amanhã. Devemos conhecer, realmente, as condições da nossa terra na Guiné e em Cabo Verde, para podermos fazer planos concretos para avançar o desenvolvimento da nossa terra. E não andar como quem entra num quarto escuro, a tropeçar em tudo, derrubando móveis, dando com a cabeça, a testa na parede, sem saber o que se está a fazer. Isso é muito importante para a nossa vitória amanhã, no plano da nossa resistência económica, camaradas. Devemos evitar desde já, como amanhã, toda a mania dos planos grandiosos, devemos fazer aquilo que é possível em cada fase da nossa vida e devemos conhecer isso bem.

Devemos evitar, combater, todos os que ficam de braços cruzados. Na nossa terra, hoje como amanhã, todo o ser válido deve trabalhar. Quem não trabalhar, não tem direito a nada na nossa terra, tem que ser assim. Quem tem valor trabalha, quem não tem valor é porque não trabalha. E os melhores são aqueles que mais trabalham. Tem que ser assim na nossa terra e deve ser assim na nossa luta.


--------- ( segue-se exemplos figurativos sobre o assunto ) ----------------------------------


Ninguém pense que pode dormir à sombra daquilo que trabalhou ontem. Há vários camaradas dentro do nosso Partido que, porque trabalharam muito na mobilização, porque trabalharam muito na primeira fase da guerrilha, porque trabalharam muito no abastecimento em certa época, porque foram bons dirigentes de guerrilha ou do Exército, etç, hoje encolhem-se, escondem-se a arranjar manobras para não trabalharem muito, passam a vida parados, escondidos numa base, ou muitas vezes mesmo fora da terra na fronteira. Não pode ser assim, camaradas. Ninguém ganha nada no nosso Partido se parar de dar cada dia mais trabalho, mais sacrifício, de mostrar mais vontade e mais decisão no trabalho.

Outra coisa grave no nosso Partido, na nossa luta, é o seguinte: alguns camaradas que foram feridos, mesmo sendo válidos ainda, porque a maioria graças a Deus é válida (nós dizemos graças a Deus, mas também ao nosso Partido) de 500 camaradas feridos, por exemplo, 450 ou mais podem ficar válidos e voltar portanto a lutar, mas há uma tendência hoje, camaradas, que é o seguinte: “eu sou ferido, agora faço do meu ferimento uma coisa muito grave, para parar a luta. Já cheguei a Ziguinchor, tive sorte de chegar a Conakry, não morri, feri-me um bocado, agora não luto mais”.

Não camaradas, isso é desmobilização, é deserção. Em qualquer país, onde o povo é consciente, em qualquer luta em que os combatentes são conscientes, apanhar pancada leva a ter mais coragem, lutar com mais vontade ainda, porque não só defendem a causa, a que se dedicam com força, como têm que fazer o inimigo pagar o mal que lhes fez.
 
Noutros países há combatentes que pedem pernas especiais para avançarem outra vez para a luta. Há outros países comissários políticos, por exemplo, que em plena guerra são feridos num braço, o médico diz que têm que ficar seis meses para curar o braço. Eles pedem para cortar o braço, porque assim curam-se em 15 dias e podem continuar. Porque um comissário político só precisa da cabeça, mesmo sem braços pode trabalhar.

Na nossa terra há comissários políticos que se têm a sorte de ferir um dedo, já é pretexto para parar, já não podem mais.

(CONTINUA)

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