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Joseph Pulitzer

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Cabo Verde na rota da droga sul-americana

As autoridades começaram por suspeitar que o massacre de Monte Tchota podia ser a primeira prova da influência dos traficantes sob a esfera militar cabo-verdiana. A hipótese está afastada mas os dados confirmam o perigo


Foi a primeira hipótese avançada mal as autoridades cabo-verdianas tomaram conhecimento, na terça-feira, da chacina de 11 pessoas numa base militar do país: após a detenção de seis pessoas que se seguiu à apreensão de 280 quilos de cocaína, na semana passada, as próprias fontes policiais avançavam como causa mais provável um ato de retaliação dos traficantes.

Não sendo ainda afetado pelo fenómeno como a Guiné-Bissau, por exemplo, Cabo Verde é identificado pelas agências internacionais de combate ao narcotráfico como uma “importante base do trânsito de cocaína sul-americana para a Europa”, como se diz no último relatório estratégico do controlo internacional de narcóticos publicado pelo Departamento de Estado norte-americano.

No mesmo país, o Gabinete de Segurança Diplomática (OSAC na sigla original) lembrava em 2015 que “as autoridades fazem o melhor que podem com os recursos limitados” à disposição, mas não conseguem impedir que o tráfico de drogas “continue a ser um problema para Cabo Verde”.

O próprio gabinete das Nações Unidas dedicado às drogas e ao crime (UNODC) avisava em março deste ano que “o tráfico de droga entre a América do Sul e a Europa que passa por África está a crescer e a cocaína sul-americana passa principalmente por países da África Ocidental antes de chegar à Europa”. E a agência alertava para o facto de este fenómeno “não apenas aumentar a atividade criminal como também resultar no aumento de consumo de drogas ilícitas, particularmente entre os mais jovens”.

Consumo a aumentar
Num relatório de 2013 a UNODC estimava que 7,2% da população cabo-verdiana com idade inferior a 15 anos tinha “consumido drogas psicoativas (lícitas e ilícitas) em algum período da vida”. Uma percentagem pouco inferior aos 7,6% detetados em pessoas com idades entre os 15 e os 64 anos. O mesmo documento apontava a “canábis, cocaína, heroína e metanfetaminas” como “as drogas consumidas mais comuns”.

E para além dos dados que confirmam a importância do problema na sociedade cabo-verdiana, dois relatórios de diferentes agências do Departamento de Estado norte-americano lembram episódios que terão contribuído decisivamente para a primeira leitura feita pelas autoridades sobre o massacre de Monte Tchota.

“O narco-terrorismo está a crescer nas ilhas e resultou na morte da mãe de um inspetor da Polícia Judiciária que estava diretamente envolvido na investigação a um caso mediático de narcotráfico”, lembra o relatório estratégico para o controlo internacional de narcóticos do Departamento de Estado dos EUA. Já a “recente tentativa de assassínio de um familiar de um alto dirigente governamental” é recordada pela OSAC.

Fugir da fama guineense
 
E se este clima de suspeição terá justificado a primeira informação avançada, o facto de um militar ter sido dado como desaparecido – e suspeito – não representava obrigatoriamente uma mudança de tese, pois se o país se está a tornar um local de entrada de droga sul-americana também poderia estar a constatar pela primeira vez a cumplicidade entre traficantes e forças militares.

Em 2013, depois de considerarem a Guiné “o Estado do narcotráfico por excelência”, os EUA detiveram o contra-almirante Bubo Na Tchuto numa embarcação de traficantes, tendo o ex-líder da Marinha guineense assumido a culpa em julgamento posterior nos EUA. Na Tchuto era uma das figuras mais importantes da lista de 120 guineenses – que incluía políticos, empresários e muitos militares – divulgada pelos EUA por suspeita de pertença a grupos de narcotráficos.

Cabo Verde está ainda longe de ser a Guiné e conta com a ajuda do aliado norte-americano para não seguir o destino. “OS EUA e Cabo Verde são parceiros em áreas muito importantes. Entre elas, a segurança marítima e o crime transnacional são prioritárias. O governo de Cabo verde apoia fortemente o combate ao tráfico, é um modelo regional de parceria estratégica”, disse o embaixador Donald L. Heflin, ao Senado de Washington, ao ser nomeado para o arquipélago.
 
 
 

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