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Joseph Pulitzer

sábado, 28 de novembro de 2015

Timor-Leste. Uma nação que aprendeu a viver com a independência

28 de novembro de 1975. Timor-Leste declarava a independência. Mas o sentimento de liberdade iria durar muito pouco. Nove dias depois, os indonésios invadiam o país.

 
Jorge Gomes, 49 anos, guarda poucas recordações dessa altura. Lembra-se, sobretudo, dos três anos e meio que passou com a família nas montanhas após a invasão. "Não havia roupa, nem comida." Quando regressaram a Díli, enfrentaram vários massacres. "Muitos prisioneiros, milhares de mortes, casas queimadas." Em 1991, a tragédia abateu-se sobre a família: o irmão de Jorge foi assassinado por militares da Indonésia na igreja de Motael. Chamava-se Sebastião Gomes e era membro da resistência timorense. Seguiram-se várias perseguições à família. Passados 15 dias, quando cerca de três mil pessoas prestavam homenagem ao jovem, o exército indonésio abriu fogo, matando mais de 250 timorenses, naquele que ficou conhecido como o massacre de Santa Cruz.

Quarenta anos após a proclamação da independência, há em Díli o sentimento de paz consolidada, mas a luta e o sofrimento do povo timorense nos anos seguintes continuam bem presentes. Não é fácil encontrar quem fale bem português (língua oficial, tal como o tétum) na capital de Timor. Após séculos de domínio colonial português, a língua foi banida durante os anos de ocupação indonésia - entre dezembro de 1975 e outubro de 1999. Mas Jorge esforça-se para contar ao DN um pouco da sua história. "No passado falava bem português, mas na montanha esqueceu-se tudo", diz, à entrada do Palácio de Lahane, onde coordena a equipa timorense que organizou um jantar para os membros da Reunião Extraordinária do CONSAN - CPLP, a convite do presidente da República, Taur Matan Ruak.

Jorge Gomes estudou na escola técnica agrícola e é agora funcionário do Ministério da Agricultura. Tem uma família grande: cinco filhos, com idades entre os 12 e os 20 anos. "A independência veio melhorar as nossas vidas. Timor-Leste agora é livre." E está em crescimento: a capital é cada vez mais cosmopolita, as construções aparentemente pouco sólidas contrastam com os grandes edifícios do Estado, das embaixadas e das empresas. Mas nos subdistritos, a situação continua dramática. "Nas zonas mais isoladas, ainda não há estradas nem electricidade. E as escolas não têm condições." Mas Jorge compreende que o desenvolvimento seja lento. "É uma nação que ficou destruída. Agora vai-se desenvolvendo."

Estamos em novembro e, ao contrário do que seria expectável, ainda não choveu em Timor. As temperaturas rondam os 35 graus. Na marginal de Díli, o DN tenta, sem sucesso, encontrar alguém que fale português. Só tétum. É no Beach Hotel, junto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que encontra Filomena Melo, 57 anos, empregada de limpeza. "Não consigo falar muito, mas vou tentar. Estive muito tempo sem falar português", avisa, com um sorriso rasgado. Como centenas de milhares de timorenses, Filomena também se refugiou nas montanhas. "O meu marido morreu lá."

Em 1999, Filomena fugiu para a Indonésia com os dois filhos, mas foi obrigada a regressar. Com a independência, "a vida melhorou um pouco. A educação e a saúde estão melhores. Também há mais casas". A pobreza diminuiu, diz, "mas ainda há muitas pessoas que passam fome e que não conseguem arranjar trabalho". Muitas famílias vivem com menos de um dólar por dia. E ainda há uma grande percentagem de crianças subnutridas.

"Uma nova fase"


Zacarias da Costa tinha 9 anos quando Timor declarou a independência. "Era refugiado em Timor Ocidental." O irmão mais velho pertencia à Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) e, apesar da tenra idade, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros acompanhava "com interesse" a situação. Com a declaração da independência, "era importante que os timorenses sentissem que entravam numa nova fase". Revelou-se curta, muito curta. "Havia um misto de alegria e apreensão, porque a invasão indonésia estava eminente." E aconteceu.

É difícil fazer um balanço dos últimos 40 anos, porque "contemplam o período da ocupação indonésia". Muitos massacres, torturas, fome. Mas olhando para os 13 anos desde a restauração da independência, a 20 de maio de 2002 - sob protecção da ONU -, o fundador do Partido Social-Democrata considera que, "apesar dos momentos difíceis, Timor encontrou o caminho certo. Os erros serviram para amadurecer o país". As principais dificuldades já passaram, "mas há o desafio de gerir bem Timor, nomeadamente o que vem do petróleo". E ainda há muito para fazer: "Em primeiro lugar, criar boas infraestruturas para que a educação seja uma aposta ganha e investir na consolidação da língua portuguesa."

Educação é prioridade

Para Olga Boavida, 23 anos, estudante de Língua Portuguesa na Universidade Nacional Timor Lorosae, a prioridade é também a educação. "O governo deve ter em atenção a formação dos professores, pois são eles que educam os mais novos. São o futuro da nação." Nos subdistritos, "as escolas públicas não têm condições e não há professores bem formados". Olga ouve frequentemente o pai falar da independência. "Conta que havia guerra. A minha família salvou-se porque foi para o mato." Quiseram matar o pai e o tio, por desconfiarem de que davam comida aos guerrilheiros. O tio acabou mesmo por morrer quando voltou das montanhas. "Subiu a uma árvore para ir buscar alimento, caiu, ficou ferido e, como não havia tratamento, faleceu." A jovem recorda-se da restauração da independência. "As pessoas gritavam "independência" e dançavam. Lembro-me de ver o Xanana [Gusmão] a chorar."

Em Díli
 
 

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