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Joseph Pulitzer

domingo, 22 de novembro de 2015

Entrada da Guiné Equatorial desvirtuou CPLP

A escritora Inês Pedrosa classificou hoje como lamentável a entrada da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), porque "não favorece a própria imagem da instituição", ao não cumprir os direitos humanos mais básicos.


Em declarações à Lusa em Belmonte, onde debateu com a escritora brasileira Andréa Zamorano questões relacionadas com língua, geografia e identidade, no âmbito da segunda edição do Diáspora -- Festival Literário de Belmonte, Inês Pedrosa sustentou que uma instituição criada para promover a língua portuguesa "ir buscar um exemplo dos piores a nível de qualquer instância, qualquer medida de democracia, direitos humanos, por questões meramente de interesses económicos, é lamentável, porque desvirtua o que é a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa".

"É lamentável, desde o início que o disse, e volto a dizê-lo agora, porque quando a Guiné Equatorial entrou, disse que se comprometia a fazer o ensino do português e a tornar o português, de facto, língua oficial -- e é claro que isso não se decide por decreto, uma língua não se torna oficial por decreto, mas parece que os esforços nesse sentido também não foram nenhuns", frisou.

Para a autora, "não faz qualquer sentido um país que não fala português estar nesta comunidade -- de mais a mais, um país que não cumpre os direitos humanos básicos", defendeu, embora acrescentando que "isso não quer dizer que todos os países da Comunidade de Língua Portuguesa os cumpram".

"Sabemos que não é assim, sabemos as questões que existem neste momento em Angola", precisou, referindo-se ao julgamento em curso em Luanda de 17 jovens angolanos acusados de tentativa de rebelião contra o regime angolano e conspiração para assassinar o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

A escritora, cujo mais recente romance, "Desamparo" (D. Quixote) se passa no Brasil, e que costuma pedir conselho aos amigos brasileiros sobre a verosimilhança do que escreve na variante brasileira da língua, lamentou também "que a CPLP só tenha aparecido para fazer o Acordo Ortográfico que, na sua formulação, é desnecessário porque não unifica a língua -- até pelo contrário, há palavras que eram iguais e passaram a ser diferentes".

"É um acordo que não serve o princípio de que seria mais fácil o português tornar-se internacional através da sua unificação - esse princípio não é cumprido", insistiu.

"E a outra coisa em que a CPLP aparece é nesta questão da Guiné Equatorial, e isso não favorece a própria imagem da instituição, que deixa de ser uma coisa de que nos possamos definitivamente orgulhar, porque nós não temos nem a língua em comum, nem nada em comum com a Guiné Equatorial", argumentou, acrescentando: "Por isso, exorto as autoridades portuguesas, sejam elas quais forem -- neste momento, não sei quais são -- a que façam qualquer coisa, a que ajam de forma a acabar com essa nódoa, que acaba por ser uma nódoa na nossa língua também".

Por sua vez, Andréa Zamorano, que vive em Portugal há mais de 20 anos, tem também nacionalidade portuguesa e diz falar "um português transnacional", uma fusão das variantes da língua faladas em Portugal e no Brasil, disse à Lusa que também não poderia concordar com a entrada da Guiné Equatorial na CPLP.

"Antes de mais, porque não posso aceitar que a CPLP compactue com nenhum regime ditatorial, e acho que o trabalho da CPLP deve ser o de promoção da língua portuguesa, da cultura de língua portuguesa, mas não a todo o custo", vincou.

Segundo a autora, que publicou este ano o seu romance de estreia, "A Casa das Rosas" (Quetzal), "há valores que se sobrepõem: o valor da liberdade e o valor dos direitos individuais e os valores da democracia, que têm regido a CPLP, deveriam ser respeitados e mantidos".

Quanto ao Acordo Ortográfico de 1990, actualmente em vigor, Andréa Zamorano considerou que "não sendo esse acordo ainda o ideal - deverá ser revisto e deverá ser melhorado - faz sentido unificar a língua portuguesa do ponto de vista da escrita".

"Não entendo porque é que não podemos unificá-la, porque é que não podemos ser como o inglês, que tem só uma norma culta, porque é que não podemos ser como o espanhol - porque é que não podemos ser assim? Eu não tenho esse drama da identidade nacional ligada à escrita, porque acho que, no fundo, o grande problema de aceitação desse acordo é um problema de afectos", explicou.

Na sua opinião, o problema "não deve ser olhado por esse prisma, porque a língua escrita é uma formalidade, é uma convenção, uma arbitrariedade da oralidade".

"Deveríamos encontrar na língua escrita um facilitador do processo de unificação, e não as querelas que temos encontrado em relação ao acordo, que se situam muito mais num plano emocional do que num plano linguístico", rematou.


(foto: lusa)


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