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Joseph Pulitzer

terça-feira, 24 de novembro de 2015

«O meu coração chora pelos refugiados» Fatema Elhenshiri

Durante anos, ajudou centenas de deslocados no Egito. Quando menos esperava, foi apanhada pela revolução que assolou os países árabes e viu-se obrigada a fugir também. Chegou a Portugal sem nada, mas no coração manteve sempre a esperança de um dia voltar a ter a vida que a guerra lhe roubou


O sorriso contagiante de Fatema Elhenshiri dificilmente deixa adivinhar a luta que trava há quatro anos para se integrar num país que não é o seu, que não fala a mesma língua que aprendeu em casa, que se alimenta de combinações gastronómicas nunca antes digeridas e onde nem a religião dominante é aquela que professa. Chegou a Portugal em 2011, numa madrugada fria de inverno, integrada num grupo de estrangeiros resgatados à pressa do Cairo. Além do marido, da filha de oito anos e da roupa que trazia no corpo, pouco mais conseguiu colocar na bagagem. Teve que recomeçar a vida a partir do zero e hoje, quando se senta no seu modesto apartamento para jantar, na cidade de Leiria, reza para que não surjam nas notícias mais histórias dramáticas de refugiados em fuga à procura de um futuro incerto por terras europeias.

«A comida fica atravessada na garganta e já não consigo comer mais. É uma coisa dramática. Não só por estarem a deixar a sua terra, muitos sem documentos, mas também pelo que sofreram antes de deixar o seu país e pelo que sofrem até encontrarem um local que os acolha. O meu coração chora pelos refugiados», afirma Fatema. Por momentos, o seu semblante transforma-se. O sorriso desaparece e a tristeza toma conta do rosto acastanhado, emoldurado pelo lenço de cor suave. Afinal, a sua história, confunde-se com a de milhares de migrantes que deambulam por acampamentos improvisados, espreitam uma oportunidade para ultrapassar as fronteiras europeias ou arriscam e vida em frágeis embarcações no mar Mediterrâneo.

Fatema Elhenshiri nasceu no Egipto há 45 anos. Filha de pai líbio e mãe egípcia, escolheu a nacionalidade líbia, mas foi no Cairo que cresceu, estudou e constituiu família. Licenciou-se em Inglês, dava aulas numa escola e servia de intérprete junto das equipas das Nações Unidas que ajudavam os refugiados do Sudão, Eritreia, Síria, Etiópia, Iraque e Uganda. O marido, David Sani, 46 anos, natural da Guiné-Bissau, era também professor, mas de francês. Com emprego, casa montada, laços familiares enraizados e uma filha saudável, o casal tinha tudo para continuar a trilhar os passos da felicidade. Mas a 3 de fevereiro de 2011 tudo mudou. Literalmente de um dia para o outro: «Decidimos partir numa noite. E como somos uma família, viemos os três».

De repente, viu-se «despejada» no aeroporto de Figo Maduro, sem conhecer ninguém e sem saber uma palavra de português. David tinha um irmão a exercer medicina em Portugal, que os ajudou no que pode, mas por muito que se esforçasse, não os conseguiu ajudar no essencial – no processo de legalização, na entrada no mercado de trabalho e na aprendizagem da língua portuguesa. «Foram dois anos difíceis, até conseguirmos arranjar os papéis», recorda Fatema.
Depois de uma rápida passagem por Lisboa, o casal instalou-se em Leiria. E é ai que, paulatinamente, vai tentando refazer a vida. Ela conseguiu um emprego, como trabalhadora doméstica, ele ganha a vida numa empresa de fornos industriais. A filha, Sara, agora com 13 anos, estuda numa escola da cidade, e dá cartas como velocista num clube com tradição no atletismo. Nas horas vagas, dão aulas de árabe, em regime de voluntariado, ao abrigo do projeto Speak, criado pela Associação Fazer Avançar. Continuam a precisar da ajuda da Cáritas diocesana, da Cruz Vermelha e do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), mas Fatema já ganhou o gosto pela cozinha – aprecia migas, caldo verde e sopa de grão de bico – e até já sonha com a possibilidade de, um dia, vir a abrir o seu próprio restaurante.

Tocada pelo passado recente, sonha até com a criação de uma associação para «ajudar mulheres e crianças» em situação de vulnerabilidade. «Nós não vivemos sozinhos neste mundo. Ora se estamos juntos, é suposto que nos ajudemos uns aos outros. E uma pessoa é um ser humano, seja no Egito, seja em Portugal. A nossa passagem pela vida é muito curta para que se façam guerras», remata Fatema Elhenshiri.
 
 
(Foto Ana Paula)
 

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