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terça-feira, 12 de abril de 2016

G-Bissau aos olhos de uma portuense

Fara Caetano tem, de há cinco anos a esta parte, a vida dividida entre duas pátrias. A natural do Porto tem passado o tempo entre Portugal e a Guiné-Bissau, onde tem trabalhado na área da educação. O Porto24 foi conhecer as histórias que se acumulam ao trabalhar em várias cidades, de Bissau a Canchungo passando pela Mansoa.

É sobre a Guiné que incide a entrevista, mas é a história de vida de Fara que a pontua, numa dedicação à educação e à melhoria das condições de vida e acesso ao ensino do país que marca uma carreira “feliz” que a ensinou a “relativizar os problemas”.

Licenciou-se em 2010 em História, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Dois anos depois, tornava-se mestre em História, Relações Internacionais e Cooperação, na mesma instituição.

Em setembro de 2011 deu-se o primeiro contacto com a Guiné-Bissau, ao dar aulas a uma turma de 7º ano numa escola da capital, Bissau, enquanto investigava “o tema da cooperação portuguesa e o impacto na educação no país”, para a tese de mestrado. Voltou em março de 2012, mas o regresso não tardaria.

No primeiro mês de 2013 estava de regresso, como voluntária num jardim infantil em Mansoa. Foram dez meses de estada antes do regresso a Portugal. A viagem para terras africanas continuou a chamar por Fara Caetano, que experimentou em fevereiro de 2015 a experiência de formar professores, novamente em Mansoa, durante seis meses. “Uma experiência muito gratificante”, conta.

Findas as viagens de ida e volta, chegamos ao ponto actual. A professora dá agora aulas de História a cinco turmas do 11º e 12º anos no Liceu Regional de Canchungo, no norte da Guiné, um trabalho “exigente mas muito compensador”, até porque as condições de ensino “não são as melhores”, por várias razões, da escassez de materiais às infraestruturas precárias e ao atraso na formação dos professores. Além disso, cada turma tem 40 alunos, elevando o total de alunos a aprender História com a portuense para os 200. “Mas sinto diariamente que estou a fazer a minha parte para poder ajudar quem mais precisa”, explica ao Porto24.

As histórias vividas na Guiné-Bissau, bem como o relato único vivido por dentro do modo de vida e dos progressos no ensino no país africano, são inúmeras ao longo das quatro estadas da professora em três localidades diferentes.

Aos 27 anos, radicada em Canchungo com o namorado, um guineense que estudou na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, Fara Caetano deixa ao Porto24 o relato de um trabalho em prol dos outros, por entre recomendações musicais, histórias curiosas e um retrato social e político de um “país em construção”. 

Como surgiu o primeiro contacto com a Guiné-Bissau?

O interesse por África começou a crescer durante a faculdade, quando comecei a despertar um grande interesse pelas temáticas africanas no curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A vinda para a Guiné-Bissau acabou por acontecer quase que de repente, no âmbito do mestrado, embora que não por acaso. Apesar de, desde a adolescência, ter aquela vontade (quase cliché) de um dia poder fazer uma missão em África, nunca pensei que pudesse acontecer tão cedo [tinha 22 anos na altura]. 

Porquê a Guiné-Bissau e não outro país africano?

Por motivos afectivos essencialmente, uma vez que o meu namorado é guineense e foi ele o grande impulsionador do início desta minha aventura em terras africanas. 

Como classificarias as condições de vida no país e na região onde vives?

A Guiné-Bissau é um país em construção. Tal como um qualquer outro país em desenvolvimento, apresenta muitas fragilidades no que respeita às condições de vida, nas mais diversas áreas, nomeadamente na área da saúde e da educação. O país está na cauda do o Índice de Desenvolvimento Humano (2013) da Organização das Nações Unidas [em 176º num total de 187 países], portanto só por aí já podemos ter uma noção do estado do seu desenvolvimento.

As necessidades do país ainda são básicas: ter acesso a água potável (e canalizada) e electricidade, e sem estes dois elementos é muito difícil um país conseguir desenvolver-se. Cerca de 70% da população não tem acesso a electricidade e esta circunscreve-se, basicamente, a Bissau. A esperança média de vida à nascença é muito baixa [48 anos] e o acesso a cuidados de saúde ainda é muito limitado, tanto por falta de equipamentos hospitalares como de recursos humanos. Além disso, a maioria da população vive em zonas rurais e aí o acesso é ainda mais escasso. E depois existem todos os outros problemas, não menos importantes, como a instabilidade política, o desemprego, o trabalho infantil, o casamento precoce e forçado, a mutilação genital feminina, as desigualdades sociais, a inacessibilidade à justiça…

É preciso uma reforma profunda do sistema de ensino guineense”

Quais as condições de ensino no país?
(foto DR)


Para mim, a educação é, a par da saúde, o principal pilar de um país. E na
Guiné-Bissau ainda é uma área muito menosprezada. Ser professor na Guiné-Bissau é um desafio constante. Têm salários baixos, muitas vezes pagos com meses de atraso, ou simplesmente que não são pagos, e as condições de trabalho são muito precárias. Há muitas greves e estas podem durar meses ou mesmo períodos lectivos. Aqui existem, essencialmente, três tipos de escolas: públicas, privadas e de auto-gestão, e a qualidade de ensino varia entre elas. O conceito de privado não é igual ao de Portugal, já que existem escolas privadas que são barracas, por exemplo. É comum vermos crianças a levarem a própria cadeira de casa para a escola, diariamente. Os livros escolares são escassos, a matéria é ditada para o caderno e o sistema de ensino/aprendizagem é lento. Muitos alunos fazem quilómetros para poderem ir à escola, a pé ou, se tiverem sorte, de bicicleta, e com o estômago vazio. É a força de vontade que comanda as suas vidas.

Para além disso, em geral, a entrada na escola é tardia e ainda existem muitas disparidades quanto ao género. Ainda persiste a ideia de que as meninas não devem ir à escola, mas sim dedicar-se apenas às actividades domésticas. A educação pré-escolar é vista como desnecessária. As crianças não são estimuladas.

Depois há o problema da língua, o português é a língua oficial no país e obrigatório nas escolas, mas no quotidiano toda a gente fala crioulo e/ou as línguas étnicas. Na maioria dos casos, o primeiro contacto com o português dá-se na escola, quando se aprende a ler e a escrever. Como é que uma criança que só fala o crioulo vai conseguir aprender a escrever, ler e falar uma língua que mal conhece? 

Com um cenário tão negro, que hipóteses há para melhorar as condições?

Mudar as condições do sistema educativo na Guiné-Bissau passa, em grande parte, pelo interesse político e pela sua consciência da importância da educação para o desenvolvimento do país. O orçamento do Estado para a educação não é suficiente nem faz parte das prioridades e para haver mudanças esse aspecto teria de ser alterado.

Para além disso, teria de haver uma reforma profunda, de base mesmo, do sistema educativo, adequando os programas à realidade guineense. Estar à espera de projectos de cooperação internacional não é a solução, tem que haver interesse político e mudança por parte dos próprios governantes guineenses. 

Há algum projecto em curso para minimizar os efeitos do subdesenvolvimento? 

Existem muitos projectos de cooperação no terreno, alguns deles com um trabalho muito importante e resultados visíveis, principalmente na área da educação e da saúde também. Mas isso não é suficiente. A mudança tem e deve partir de dentro. O apoio internacional é importante, mas não é suficiente nem sustentável. O país (poder político) é que deve tomar a iniciativa de promover mudanças com vista ao desenvolvimento, aproveitando o apoio da cooperação internacional para tentar criar alguma independência e autonomia e não o contrário, a constante dependência do exterior, como se verifica.

Permanente é uma palavra forte, não tem muito a ver comigo” 


É a quarta estada na Guiné-Bissau desde 2011. Há quanto tempo estás em Canchungo?

É verdade, desde 2011 que me divido entre Portugal e a Guiné-Bissau e esta temporada está a ser a mais longa. Já cá estou há mais de um ano e já vivo em Canchungo há cerca de 8 meses. 

Ficar permanentemente no país já é uma possibilidade?

Não tenho por hábito fazer muitos planos na minha vida. Deixo que as coisas vão acontecendo e vou tentando fazer as escolhas certas quando tenho que as fazer. Permanentemente é uma palavra forte, que sugere limites e acho que não tem muito a ver comigo. Para já estou aqui e gosto muito de cá estar. Gosto de viver o presente. Apesar de todos os problemas e adversidades que a Guiné-Bissau apresenta, é um país tranquilo, muito acolhedor e cativante, mas só se percebe isso quando cá se está e se sente o calor, não só das temperaturas elevadas, mas essencialmente das pessoas. Gostaria de continuar a dar o meu (ínfimo) contributo para este país por mais tempo, sim, mas não tracei esse objectivo de ficar cá de vez.

O que é que ainda te falta fazer?

A nível profissional estou muito feliz e realizada e sinto que é isto que gostaria de continuar a fazer o resto da minha vida, e, se puder, gostaria de fazer mais e melhor do que tenho feito. Esse é o meu sonho. Gosto de estar perto das pessoas e de trazer alguma mudança na vida delas, por mais insignificante que seja. Na vida, os objectivos que me faltam alcançar são o poder viajar mais e ser mãe. Não sonho muito alto e contento-me com o que tenho. Cada vez mais sinto que sou uma sortuda por ter a vida que tenho, que foi a que escolhi e que não me permite ter muitos luxos, mas que me dá a oportunidade de ser feliz e de ter o essencial. Aqui aprende-se a relativizar os problemas. Viver num país como a Guiné-Bissau ajuda-nos a ver a vida desta forma. 

Que diferenças traças entre os dois países?

É tudo diferente. A primeira diferença que se sente logo no primeiro segundo quando se abrem as portas do avião é o clima: abafado, húmido e pesado. Se chegarmos na época das chuvas, como aconteceu na minha primeira vez na Guiné, sentimos o cheiro a terra molhada, uma sensação indescritível de contacto directo com a natureza, acompanhada de uma sensação térmica bastante quente e, ao mesmo tempo, húmida. Se for na época da seca levamos de imediato com um bafo entre os 35 e os 40 graus. Portanto, o clima por si só, já é uma grande diferença, antes mesmo de chegarmos ao choque cultural.

Depois podemos falar das condições de vida, do contacto directo com a pobreza, dos hábitos, comportamentos, costumes e tradições, da religião (há uma minoria cristã, a maior parte da população é animista ou muçulmana), da cultura, da gastronomia, das acessibilidades, enfim, tudo é completamente diferente. Quando chego a Portugal e me perguntam como é viver aqui e quais as diferenças, sinto muita dificuldade em dizê-lo, porque há coisas muito difíceis de explicar. Vejo, sinto, não esqueço, mas não consigo expressar tudo o que vivo aqui.

Também há muitas semelhanças. Pessoas com os mesmos problemas, as mesmas preocupações, os mesmos projectos, sonhos, ambições. Apercebemo-nos que somos seres humanos iguais em qualquer parte do mundo, mas em cenários distintos. Acho que a música “Tás a ver”, do Gabriel o Pensador, ilustra na perfeição essa ideia do sermos no fundo todos muito semelhantes apesar de tudo o que nos diferencia.

“As crianças aqui são príncipes e princesas num lugar onde não existem contos de fadas”


O que mais te impressionou pela positiva?

A capacidade de sofrimento e de resiliência dos guineenses. Acho que têm uma força incrível para ultrapassar os obstáculos da vida. Com pouco fazem muito e com esse pouco conseguem construir felicidade. E este conceito de felicidade é relativo. Para mim, por exemplo, era impensável ver uma criança a viver num bairro pobre, sem as condições que para mim são básicas, sem amor e sem o mínimo conforto, ser feliz. Mas essas crianças existem aqui. Elas têm pouco, mas acabam por nos dar muito, muitos ensinamentos, muitas lições de vida. Estão sempre a sorrir e sei que sorrir não significa estar feliz. Mas é um passo. Elas dão esses passos que eu acho que seria incapaz de os dar. Elas têm a verdadeira sabedoria da vida. São príncipes e princesas num lugar onde não existem contos de fadas.

Outra coisa que me impressionou pela positiva foi a segurança e tranquilidade do país. Há realmente instabilidade política, mas a vida quotidiana é tranquila. Nunca tive problemas com a questão da segurança e nunca me trataram mal. Os guineenses são um povo muito acolhedor e hospitaleiro e não senti nunca racismo.

Mas também há aspectos negativos, naturalmente.

Sim. Pela negativa, impressionou-me a pobreza extrema, a falta de condições nos hospitais e nas escolas, a desorganização e a ambição pelo poder. Este é um país pequenino, com potencialidades no turismo, por exemplo, mas que ainda não teve a sorte de ter as pessoas certas na política. Ninguém quer passar férias num país instável a nível político. Desde a independência do país, a Guiné foi sobressaltada por crises políticas (e uma Guerra Civil de quase um ano), como uma doença crónica grave. A vida das pessoas está sempre em segundo plano e os políticos têm o dom de retirar a esperança ao povo que vive todos os dias à espera de dias melhores.

Aqui existe uma expressão muito comum e que acaba por ser sempre a resposta final para tudo: “djitu ka ten”, que significa em português “não há jeito”. E é este o sentimento das pessoas. Não têm escolha, não podem tomar decisões, não conseguem mudar as suas vidas, por mais vontade que tenham. E isso é triste num país que se define democrático. Todas as democracias têm as suas fragilidades, mas em alguns países africanos, em que são mais jovens, essas democracias são puras utopias. São apenas um papel escrito. 

Aprendo mais do que ensino”

(foto DR)
De que forma é gratificante poder ensinar num país em desenvolvimento?

Ser professora num país em desenvolvimento tem sido, para mim, um privilégio e um desafio enorme. É muito gratificante, porque sinto que a minha presença dentro da sala de aula é valorizada e muito respeitada.

Sei que a minha presença não muda muito, porque fazer a diferença não é fácil, e eu sou mais uma gota no oceano como tantas outras, mas estou a dar o melhor de mim. Se conseguir melhorar, de alguma forma, a vida de um aluno meu já fico feliz. Nem que seja através de um conselho que dei ou de um gesto que fiz. Tudo conta. Ainda assim, e para ser completamente sincera e nada modesta, na verdade quem tem aprendido mais sou eu. Que aprendo mais do que ensino, não tenho a menor dúvida. 

Mostra-nos como é um dia típico em Canchungo. 

A minha vida em Canchungo é muito simples e normal. Acordo cedo para ir para o liceu, por volta das 06h:20, porque as aulas iniciam às 07h:30 e saio de lá por volta do 12h:10, quando as aulas terminam. Tenho apenas o período da manhã preenchido com aulas, apesar de passar muito tempo do período da tarde também no liceu, porque sou directora de turma e dou algum auxílio à direcção do liceu, nomeadamente nas actividades escolares. Entretanto almoço e, nas tardes em que não tenho que ir para o liceu, aproveito para aceder à Internet, falar com a minha família e amigos e pesquisar matéria que eventualmente necessite, uma vez que é o professor que elabora os apontamentos que vai dar nas aulas, seguindo o programa do Ministério da Educação, claro. Faço também a manutenção do site e da página Facebook do liceu, actualizando todas as informações e actividades que vão decorrendo. Para além do liceu, também dou aulas na Escola Nacional de Administração, no horário pós-laboral, entre as 19h:00 e as 22h:00.

Fora do trabalho gosto muito de ler, ouvir música e dar uns passeios ao fim da tarde até ao rio (quando é possível). 

Nas tuas várias passagens pelo país, deves ter vivido uma montanha de aventuras.

Sim, várias. Aliás, é raro não ter um episódio marcante a cada dia que passo cá, seja ele positivo ou negativo. Há sempre uma história para contar. Uma que me aconteceu logo nos primeiros tempos em que estive cá e que me marcou pela simplicidade. Sempre que venho para cá arranjo um canto generoso da minha mala para brinquedos e presentes para as crianças e, certo dia, dei uma boneca a uma vizinha minha, que tinha uns sete ou oito anos de idade. Ela agradeceu, ficou sem jeito e foi-se embora. Passados uns cinco minutos bateu-me à porta e ofereceu-me uma cenoura. Inicialmente não percebi aquele gesto, mas rapidamente percebi que aquela era a forma que tinha de me agradecer pela boneca que eu lhe tinha oferecido. Não tinha outra forma de o fazer. No final quem ficou sem jeito fui eu. Esta espontaneidade é o que mais me impressiona aqui e o que me faz “esquecer” tudo o resto.

Outra história engraçada tem a ver com os transportes públicos que existem na cidade de Bissau e que têm o nome de “toka-toka”. São carrinhas que fazem o papel da nossa STCP no Porto, mas que funcionam de forma diferente. Chamam-se “toka-toka” porque quando uma pessoa entra e já não existe muito espaço para ela se sentar, o ajudante pede para as outras pessoas se encostarem mais umas nas outras para haver lugar para o passageiro que acabou de entrar, dizendo “toka um bocado” (chega para lá um pouco). Então as pessoas acabam por fazer a viagem todas apertadas, como sardinhas enlatadas, até quando já não couber uma agulha entre ninguém. E durante a viagem acontecem sempre histórias engraçadas. 

De que sentes mais saudades?

Da família e dos amigos, sem dúvida. Viver num país, neste caso num continente, diferente não é fácil, principalmente quando não temos as pessoas mais importantes da nossa vida por perto. Não me posso dar ao luxo de dizer “vou apanhar o comboio e vou até ao Porto”. Sempre que venho para cá sei de antemão que é a longo prazo, sem data de regresso e sem possibilidade de uma escapadela para matar as saudades quando me apetecer. As viagens de avião são caras e de Bissau para o Porto ainda não existem viagens low cost. Felizmente tenho o meu namorado que me ajuda bastante nos momentos mais complicados, nas datas mais especiais em que dava tudo para poder estar em Portugal, nos momentos de solidão, mas mesmo assim não é fácil. É preciso ter um bom controlo emocional e espírito de sacrifício.

E depois sinto falta daquelas coisas mais simples, mas que fazem muita falta quando estamos longe, como o conforto da minha cama em Portugal, da comida da mãe, das idas ao cinema, de comer um crepe com chocolate com uma amiga, essas pequenas coisas. E claro, da minha maravilhosa cidade, o Porto.

(in: porto24)
(foto DR)



















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